Uma frutaria em Braga: Maria Azeredo, Diário Pandemia COVID-19, 25 Abril 2020
25 abril 2020
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O senhor da frutaria contava que terá dito à cliente que se queixou do tempo agora gasto a fazer compras: Comecei a trabalhar às 3 da manhã para carregar a fruta e poder vendê-la agora…. tudo demora muito mais tempo. Não é só para si, é para todos. Nunca a noção de tempo, de vida em família, de dedicação ao trabalho (o do ordenado e o de casa) e da importância dos que mais queremos se tornou tão consciente.
 
Um jovem sem abrigo mostrou-lhe uma garrafa de vinho e disse-lhe que a queria levar mas não tinha dinheiro para lhe pagar. Tens que comer? Perguntou-lhe baixinho o dono da frutaria, um homem com os seus 70 anos. Sim, têm-me dado comida. Quando não tiveres, volta cá. Toma – entregou-lhe uma máscara – protege-te, e deu-lhe umas luvas também.
 
Eram umas 5 da manhã, estava a descarregar a fruta e bateram-me nos vidros. O que foi? Chame uma ambulância. Um vizinho, dos seus 50 anos, um homem que se via que não andava bem, atirou-se do 5º andar, lamentava o dono da frutaria com a voz abafada pela máscara, por trás da parede em acrílico que agora nos separa. Em silêncio, revisitei a interação entre ele e o jovem no momento anterior. Temos de estar atentos, e levantou os olhos para mim.
 
Nascida e criada no centro de Braga, aprendi os hábitos e rotinas da minha mãe; os mesmos da minha avó e da minha bisavó. Uma loja tradicional, um idoso em risco de apanhar esta doença que está a trabalhar e um jovem que precisa de ajuda. Este homem com bom coração que vende fruta dá esperança.
 
Maria João Azeredo
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