Subitamente o meu dia de médica modificou-se. Por um lado, lá fora trato doentes oncológicos, agora com os seus dias mais angustiados com a ameaça do virus.
Dentro de casa o convívio próximo com uma mãe de 79 anos.
As notícias nem sempre são claras mas mesmo à distância sempre me pareceu evidente que o que se passava na China era grave e haveria de chegar aqui.
Os hospitais são um meio de cultura todos sabemos isso. E nesta luta decidi alterar as minhas rotinas.
No nosso serviço não existem fardas além da bata porque a atividade realizada assim não o exige. O meu diretor de serviço faz indiscutivelmente tudo o que pode para ajudar.
Criei então a minha farda. Escolhi algumas calças , algumas blusas , um casaco e uns sapatos. Todos da mesma cor para ser fácil gerir a lavagem.
Quando chego a casa retiro os sapatos e as meias na entrada e sem grandes movimentos vou sem mexer em nada até à banheira onde lentamente retiro a roupa e a coloco num saco que fecho.
O banho é geral, cabelo e corpo com sabão, que fica algum tempo a fazer o seu trabalho. Muitas vezes, nós mulheres não lavamos o cabelo quando tomamos banho mas agora deixou de ser opção. O cabelo está o mais seguro possível, não há cabelos ao vento.
Depois, a dita farda é colocada na máquina e fechada a porta que ao 3º dia lava as 3 fardas a 60º.
A carteira também mudou, adaptei outra onde coloco os objetos de risco em bolsas separadas e já só existe o essencial. Os cartões que são usados diariamente e que passam nas mãos de muitos estão isolados.
As chaves não saem de lá nem passam em outras mãos.
Não existem mais adornos: fios, brincos, pulseira, etc.
Dentro de casa o meu dia a dia é de máscara, tenho alguém a proteger.
Não é cómodo mas é melhor do que não poder estar.
A minha mãe não entra no meu quarto nem arruma nada em que eu mexa.
As refeições são numa mesa improvisada a 3 metros de distância e vemos televisão igualmente a 3 metros. Não existem abraços nem beijinhos mas o olhar da presença está lá.
A minha mãe já não sai de casa há 5 semanas. A ligação com o mundo externo é através do telemóvel, o computador e a TV. Quando olha pela janela não vê ninguém, não ouve barulho mas sabe que existe uma ameaça lá fora contra a qual tem de se proteger. Isto é terrível, por isso é importante regressar a casa.
Felizmente a atividade médica que realizo no momento não eleva o risco e não me obriga, pelo menos para já, a sair (passar a viver fora) de casa.
4 de Abril de 2020
Dra Julieta Gonçalves
Médica Radioncologista

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