Podemos falar do que quisermos... assim, gostaria de falar da minha experiência profissional e pessoal com o primeiro recém-nascido filho de mãe COVID nascido no hospital onde trabalho.
Foram cerca de quatro semanas de preparação para uma realidade que nenhum de nós aprendeu na Faculdade. Planos de contingência que mudavam da manhã para a tarde, porque alguém lia mais uma orientação de um qualquer hospital com mais experiência. Note-se que “mais experiência” era igual a 3-4 meses de avanço e parcas casuísticas. Se dúvidas há nos adultos, mais desafiante se torna a situação quando pensamos em recém nascidos, população à partida mais frágil...pelo menos foi o que aprendemos.
A par dos planos de contingência no Serviço, aqui em casa vivia-se um cenário parecido. Os sapatos que passaram a ficar na zona de sujos à entrada, a limpeza bidiário de puxadores, interruptores e chão... o casaco de guerra que passou a ir para o terraço apanhar luz, a roupa diária despida a medo e lavada de imediato, o uso de máscara numa altura em que todos olhavam de lado para mim, o corte de cabelo radical para ser mais fácil a higiene diária. A par disto, o habitual na maioria das famílias, ou seja filhos, mãe num Lar, sogros e até um cunhado insuficiente renal em diálise três vezes por semana e com um cateter central, um marido grande fumador e teimoso que, só há pouco se rendeu ao facto de eu já dormir na sala há um mês e ter passado a usar máscara em casa para proteger a família.
Voltando ao tema inicial, depois de tantos preparativos no Serviço eis que nos aparece a primeira mulher Covid... ninguém estava preparado! O pai da criança, também ele Covid positivo, estava doente em casa e, por isso confinado ao seu isolamento. A bebé nasceu bem e teve o seu primeiro contato com este mundo estranho, longe daqueles que a sonharam e idealizaram. Um mundo estranho onde tudo o que se fazia deixou de se fazer e passou a não contar para as estatísticas das boas práticas: contato pele a pele, microbioma, aleitamento materno...até o tipo de parto foi uma cesariana...Como é irónico todo este cenário. Queremos lá saber agora da taxa de cesarianas e dos hospitais amigos dos bebés.
Voltemos à nossa bebé, filha de mãe Covid, a nossa primeira. Já vos tinha dito que é menina? Não sei se posso partilhar o nome...na dúvida digo-vos apenas que tem um nome bonito.
A bebé esteve sempre assintomática, com dois testes negativos. Do ventre da mãe passou para uma incubadora numa sala preparada para acolher outros bebés como ela. Os seus primeiros quatro dias de vida foram quase normais.... Nada haveria de estranho não fosse ninguém da família a ter visitado e as médicas e enfermeiras da Neonatologia estarem vestidas de forma diferente, como se fossem guerreiras a proteger outra guerreira, com máscaras e toucas e viseiras e batas...Que grande ritual de vestir e despir para alguém tão aparentemente inofensivo... foi alimentada com fórmula....as circunstâncias e os protocolos assim o exigiram...
Longe daqueles que a sonharam, a bebé inundava-lhes teimosamente o telemóvel através de fotos que aquelas pessoas, estranhamente vestidas, enviavam aos seus pais diariamente.
Depois de um breve estágio na Pediatria, e de muita discussão sobre quem a iria buscar e onde iria viver, acabou por ter alta ao quinto dia de vida. Vieram-na buscar os pais, ambos Covid positivo, o pai com as mãos sangrantes de tanto esfregar a casa. A mãe enviou-me ontem uma foto da bebé num berço aconchegante que agora substitui os braços e abraços dos pais.
A bebé dorme alheia à guerra biológica e de afetos existente à sua volta. Nada é seguro, dentro e fora da sua casa. Os pais continuam firmes na árdua tarefa de a cuidar e, simultaneamente, proteger de um inimigo invisível. Engolem em seco a vontade enorme de a abraçar e beijar, porque ela nasceu numa época em que os afetos são armas mortíferas potenciais.
Quanto a nós, aqueles que durante cerca de um mês, traçaram inúmeros planos de contingência, percebemos que ninguém está preparado. Não pensamos no cenário de termos pais, ambos Covid positivo, e na dificuldade que seria decidir onde colocar está bebé em “segurança” dentro da sua própria casa.
Dou por mim a trocar mensagens e fotos com uma pessoa que não conheço...
Dou por mim a acreditar que o amor mãe-pai-filho deve ser vivenciado à distância, mas sempre dentro das nossas atuais casas-o coração!
Apesar de tudo continuo a acreditar que, um dia, conseguiremos voltar a amar.
5 de Abril de 2020
Dra Maria José Costa
Médica Neonatologista
Pais COVID-19
Notem que ambos os pais deste recém-nascido são COVID-19 positivos. Já convidei a Dra Maria José Costa a escrever outro artigo sobre esta importante história.

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