Mãe em estado de emergência: Lúcia Fernandes, Diário Pandemia COVID-19, 28 Abril 2020
28 abril 2020
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Com o isolamento social voluntário, dispensei a minha empregada sem imaginar o que viria a seguir porque nessa altura as escolas ainda não estavam encerradas.
 
A minha filha tem 11 anos e frequenta o 6º ano de escolaridade. O encerramento das escolas e a presença constante da minha filha em casa, porque não pode ir para a avó que tem 91 anos, foram o início dos meus problemas.
 
Tenho formação em engenheira eletrotécnica/computadores e trabalho, realizando uma atividade de gestão, numa empresa que repara avarias na rede de eletricidade da Madeira, onde vivo, pelo que presto uma atividade essencial.
 
Na empresa, foi necessário ajustar tudo segundo as normas: higienização das mãos (lavar as mãos à cirurgião), distanciamento entre as pessoas, circuito para casos suspeitos, registo de temperatura dos empregados (quando os termómetros estão esgotados), limpeza dos carros com registo de quem o fez, arranjar máscaras a preços inflacionados e dar formação sobre todos os aspetos relacionados com COVID-19.
 
Há um computador em casa, que uso para teletrabalho e não podia ceder para as aulas da minha filha. Depois de muitas ponderações, lembrei-me de um computador arrumado, desatualizado, e, após várias tentativas, instalei as plataformas necessárias às aulas por videoconferência da minha filha. Ficou tudo a postos para o início das aulas. Mais uma vitória.
 
Vitória que virou pesadelo porque mais trabalho me esperava.
 
Começou a telescola e depois as aulas por videoconferência onde estão os trabalhos para casa, com datas para entrega. A minha filha não consegue fazer tudo sozinha. Por isso tenho de ir trabalhar, repartir o tempo em casa com o meu marido para ficarmos com a nossa filha, preparar cada refeição, sempre seguida de mais uma limpeza da cozinha, e ajudar a minha filha nos trabalhos de casa.
 
As 24 horas do dia tornaram-se cada vez mais curtas. Tenho de ser mãe, esposa, doméstica, reprogramar a atividade diária em casa, gerir uma empresa, ter noções básicas sobre COVID-19 para dar formação aos empregados, ser professora e auxiliar nos trabalhos para casa. Sou uma mãe em estado de emergência.
 
Este trabalho, que mereceu um muito bom, foi feito por nós duas:
 
 
Engª Lúcia Fernandes 
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