Hidroxicloroquina / cloroquina e COVID-19: história atual e em evolução
Diário Pandemia COVID-19, 8 Junho 2020
08 junho 2020
A cloroquina foi identificada em fevereiro como um medicamento com uma potente atividade in vitro contra o SARS-CoV-2, e o seu análogo hidroxicloroquina também demonstrou atividade in vitro em março. Ambos são medicamentos para o tratamento da malária com atividade anti-inflamatória e imunomoduladora.
Estes medicamentos foram utilizados para tratar a COVID-19 na China tão cedo quanto fevereiro, com um pequeno estudo em França a indicar redução de carga viral (em associação a azitromicina) e boas perspetivas, apesar das limitações metodológicas do estudo. Estudos adicionais em França e nos EUA, o último dos quais inclui associação com azitromicina, não forneceram conclusões claras, tendendo para a ausência de diferenças estatisticamente significativas em eficácia comparado com o padrão de cuidados a ser demonstrada em estudos randomizados.
Múltiplos ensaios clínicos foram estabelecidos por todo o mundo, incluindo o ensaio clínico Solidarity a cargo da OMS, com ainda poucos a serem devidamente relatados. À medida que a pandemia alastrou, a hidroxicloroquina e cloroquina foram também incluídas em diretrizes de tratamento emitidas por autoridades de vários países, incluindo Portugal, Espanha, Brasil, Itália, entre outros. Estas diretrizes advertem o uso destes medicamentos e recomendam monitorização em internamento, devido às já bem conhecidas considerações de segurança associadas a estes medicamentos, incluindo riscos cardíacos relacionados com o prolongamento do intervalo QT.
A 22 de maio, a revista científica The Lancet publicou uma análise multinacional de registos de mais de 96 000 doentes de 671 hospitais em todo o mundo, conduzida pela empresa privada Surgisphere, tendo encontrado não só nenhum benefício no uso destes medicamentos para o tratamento da COVID-19, mas também sobrevida hospitalar diminuída.
Isto levou a uma pausa temporária do segmento hidroxicloroquina do ensaio clínico Solidarity da OMS a 27 de maio de forma a reavaliar e rever os dados de segurança. Seguindo o exemplo, nos próximos dias, vários países revogaram autorizações ou recomendaram suspensão de uso, incluindo Portugal e França. No entanto, países como Espanha e Brasil não procederam a tais alterações. O último tinha acabado de publicar diretrizes a recomendar o uso de hidroxicloroquina+azitromicina em ambulatório a 20 de maio.
A 3 de junho, uma carta de preocupação foi publicada, a expressar a inquietação de vários cientistas em relação à origem e validade dos dados do estudo observacional publicado pela revista científica The Lancet a 22 de maio.
Entretanto, a OMS, que tinha acabado de suspender temporariamente o segmento hidroxicloroquina do ensaio Solidarity como mencionado acima, anunciou a 3 de junho, apenas uma semana depois, que, baseado nos dados de mortalidade disponíveis, o ensaio iria afinal resumir e sem alterações ao protocolo.
Como a Surgisphere, uma empresa com competências questionadas para este tipo de análise, foi incapaz de fornecer os dados completos para revisão independente por terceiros devido a requisitos de confidencialidade e acordos com clientes, o estudo foi retraído pelos seus autores a 5 de junho.
A necessidade de investigação clínica de qualidade é de suma importância em proporcionar os melhores cuidados em tempo hábil a doentes COVID-19 em todo o mundo.
Melanie Salgado
Farmacêutica e Analista de Conteúdos de Medicação
ALERT Life Sciences Computing
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