Utilização de antidepressivos durante a gravidez sem efeitos de longo prazo

Achados de três estudos publicados no “BJOG”

02 outubro 2015
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A utilização de antidepressivos durante a gravidez não produz efeitos de longo prazo em termos de desenvolvimento neurológico ou de comportamento da criança. Contudo, este tipo de medicação poderá estar associada a um aumento do risco de hemorragia pós-parto, revelam três estudos publicados na revista científica “BJOG: An International Journal of Obstetrics and Gynaecology (BJOG)”.
 
A depressão e a ansiedade são os problemas de saúde mental mais comuns durante a gravidez. Como tal, tem-se assistido a um crescimento da utilização de antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) em mulheres grávidas. Apesar disso, os cientistas não sabem ainda qual o papel deste tipo de medicação no aumento de riscos para a saúde do bebé e da mãe. Nesse sentido, a investigação agora publicada avalia os efeitos dos ISRS na saúde da mãe e no desenvolvimento a longo prazo da criança.
 
Um estudo levado a cabo pelo Instituto Norueguês de Saúde Pública analisou os efeitos da exposição deste tipo de medicação no desenvolvimento motor aos três anos em 51.404 crianças que fizeram parte do Estudo Norueguês de Coorte Mãe e Criança. Neste estudo foram identificadas 159 mães que relataram um uso prolongado de ISRS durante a gravidez. Apesar de pequenos atrasos na motricidade fina e grossa detetados em crianças expostas a ISRS durante a gravidez, os autores consideram que o número destes casos foi muito pequeno para poder indicar qualquer tipo de alteração na prática clínica.
 
Num outro estudo, uma equipa de investigadores australianos analisou dados relativos a 49 mil mulheres participantes no Coorte Nacional Dinamarquês de Nascimentos de forma a avaliar a associação entre a exposição pré-natal a ISRS e problemas comportamentais aos 7 anos de idade. Os resultados revelaram que a ausência de tratamento da depressão pré-natal se encontra associada a um maior risco de problemas comportamentais nas crianças, nomeadamente hiperatividade, falta de atenção e problemas com pares. Este aumento de risco não se verificou nas crianças cujas mães receberam ISRS durante a gravidez.
 
Noutro estudo realizado pelo Hospital de Mulheres e Crianças de Adelaide, na Austrália, a mesma equipa avaliou o risco de hemorragia pós-parto (que corresponde à perda de 500 a mil mililitros de sangue nas primeiras 24 horas após o parto) nos últimos três meses de gravidez em mulheres que tomavam antidepressivos. Esta investigação descobriu que, nas mulheres com problemas psiquiátricos (28 mil) que não tomavam antidepressivos (1.292), o risco de hemorragia pós-parto era de 11%. No caso de mulheres com antidepressivos durante a gravidez (558) o risco aumentava para 16% e, em termos de hemorragia severa e anemia pós-parto, o risco quase duplicava. Ainda assim, os autores desta investigação realçam que, como não tinham dados relativos a riscos conhecidos (como a utilização de oxitocina durante o parto) ou à gravidade do problema psiquiátrico, é possível que as mulheres que tomaram antidepressivos durante a gravidez tenham sido aquelas com os casos mais graves da doença e que tenha sido isso o responsável pelo aumento de risco da hemorragia pós-parto e não os antidepressivos.
 
Como tal, os autores alertam, em comunicado, que “tendo por base apenas este estudo não recomendamos que as mulheres parem de tomar medicação para a depressão durante a gravidez, mas que sejam acompanhadas de perto de forma a reduzir, tanto quanto possível, o risco de qualquer potencial risco acrescido de hemorragia”.
 
John Thorp, editor-chefe adjunto da “BJOG”, refere que estes três estudos vêm aumentar a quantidade de evidências relativas à segurança da toma de antidepressivos durante a gravidez e que, apesar de existirem alguns riscos, “a evidência até ao momento parece indicar que os riscos da depressão não tratada ultrapassam os riscos associados à toma destes [medicamentos]”. Desta forma, acredita, “quanto melhor compreendermos, mais bem preparados os profissionais médicos estarão para ajudar as mulheres durante a gravidez e parto”. 
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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