Um rato com células de homem

Experiência pode estar para breve

29 novembro 2002
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Cientistas norte-americanos e canadianos admitem realizar uma experiência inédita e polémica, na qual injectariam células mãe humanas no embrião de um rato, criando um ser híbrido.
 

 

Segundo a edição de do jornal New York Times, o objectivo da experiência seria provar as propriedades de diferentes estirpes de células mãe, células produzidas dias depois do óvulo se começar a dividir e antes de se desenvolverem os órgãos.
 

 

A investigação não poderia ser realizada em seres humanos devido a razões éticas.
 

No entanto, ao serem injectadas células mãe no embrião de um rato, o animal que nascer poderá ter células humanas repartidas por todo o seu corpo, nomeadamente o cérebro.
 

Outra possibilidade levantada seria o facto do rato poder produzir esperma ou óvulos humanos.
 

 

Alta Charo, da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin e especialista em bioética, considerou a propósito que a questão fundamental é saber "onde se injecta o material genético humano, quanto se injecta e se se começa a atenuar a diferença entre o animal e o ser humano".
 

 

Charo considera aceitável que se utilizem células mãe para o desenvolvimento de um determinado órgão, e que estas sejam inoculadas relativamente tarde no desenvolvimento do embrião do animal.
 

 

Numa reunião organizada pelo biólogo Ali Brivanlou, o grupo de cientistas discutiu a possibilidade de se implantarem células mãe humanas no embrião de um rato quando este é apenas uma pequena bola de células chamada blastocisto.
 

Brivanlou disse ao New York Times que depois se comprovaria se as células humanas aparecem em todos os tecidos do roedor.
 

 

As células mãe são consideradas valiosas pela medicina por serem totipotenciais, isto é, por terem a capacidade primordial para a diferenciação, podendo transformar-se em sangue, ossos, pele ou qualquer outra parte do corpo.
 

 

Daí que os cientistas as queiram utilizar para combater os efeitos degenerativos de doenças como Parkinson e o cancro.
 

O enigma é como controlar a capacidade das células mãe para desenvolver tecidos e órgãos específicos que possam ser usados em transplantes.
 

 

Os cientistas ignoram que parte do corpo é o lugar apropriado para implantar as células mãe e se o melhor momento de injectá-las no paciente é quando começam a desenvolver tecido ou antes.
 

 

Uma forma de encontrar respostas para estas perguntas é realizando experiências com animais, segundo Charo.
 

"O simples facto de misturar material genético humano e não humano parece repugnante, mas é relativamente comum", explicou Charo.
 

 

A professora citou o exemplo de pessoas cujos corações funcionam com válvulas transplantadas de porcos. Além disso, a distinção entre a informação genética de alguns animais, como os primatas, e o ser humano "não é tão clara como pensamos", disse.
 

 

O dilema ético em torno desta experiência aponta para o centro da controvérsia sobre o aborto.
 

Alguns pensadores consideram que o ser humano é o material genético, e que por isso começa com a concepção, enquanto que outros acreditam que a humanidade radica na consciência de si própria.
 

 

De acordo com a segunda corrente seria preocupante se a experiência fizesse com que as células humanas se desenvolvessem no cérebro do rato e "o animal se apercebesse de si mesmo de forma diferente da que um animal faria", declarou Charo.
 

 

A especialista afirmou que uma forma "extremamente simples" de evitar os problemas éticos colocados pela criação de um híbrido humano/animal é eliminar o embrião antes de nascer.
 

Se as células mãe fossem injectadas num animal adulto, bastaria não permitir que ele se reproduzisse, disse.
 

 

Fonte: Lusa
 

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