Transplante de rosto já é possível

Método poderá ser usado dentro de seis a nove meses, diz especialista

28 novembro 2002
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Lembra-se do filme «A Outra Face», onde o actor Nicholas Cage desempenha o papel de um criminoso que incorpora o rosto do seu inimigo, personagem interpretada pelo John Travolta, mediante tecnologia de laser?
 

 

A notícia parece saída de um filme de ficção científica, mas, na verdade, o transplante de rosto poderá ser efectuado num futuro muito próximo. Numa entrevista à BBC, um dos mais conceituados cirurgiões plásticos do mundo, Peter Butler, disse que as novas técnicas permitirão o transplante de rostos dentro de seis a nove meses.
 

 

No entanto, reforçou o especialista, antes da primeira operação, é essencial que haja um amplo debate moral e ético. «A pergunta não é “será possível fazê-lo?”, e sim “será que devemos fazê-lo?”», explicou Butler.
 

 

O médico ressaltou não considerar a parte técnica a mais complexa. O que se necessita, em primeiro lugar, segundo ele, é um debate sobre os aspectos morais de um transplante facial. Segundo o cirurgião, os transplantes faciais levantam questões diferentes de outros transplantes, como rins ou coração, no entanto, fez questão de recordar que, quando foram feitos pela primeira vez, houve resistências que foram quebradas mais tarde.
 

 

Entraves
 

 

Estas alegações foram proferidas durante o encontro anual da Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos, que este ano abordou a temática do procedimento microcirúrgico do transplante de nova pele, osso, nariz, barba, lábios e ouvidos de dadores mortos a pacientes transfigurados, entre outras razões, por acidentes, queimaduras ou devido a um cancro.
 

 

Actualmente, é muito difícil para os cirurgiões reconstruírem o rosto de um doente, isto porque a face precisa poder movimentar-se, de forma a demonstrar sentimentos e expressões, especialmente nos lábios, olhos e bochechas. Enxertos com outras partes do corpo, que hoje já são possíveis, segundo Butler, não permitem o movimento ou a sensibilidade e deixam o efeito de uma máscara.
 

 

Para que o transplante funcione, os nervos que controlam sentimentos e movimentos teriam de ser unidos com sucesso. Além disso, os avanços de medicamentos imuno- supressores para evitar reacções aos tecidos transplantados aumentariam as probabilidades de sucesso do procedimento.
 

 

Caso este tipo de transplante vá para a frente, os cirurgiões, no entanto, poderão enfrentar problemas para encontrar dadores suficientes. Uma sondagem realizada por Butler com médicos, enfermeiros e membros da sociedade mostrou que a maioria aceitaria um transplante facial, mas poucos doariam a própria face após a morte.
 

 

Quando completar o seu estudo, Butler pretende pedir autorização para realizar o primeiro transplante de rosto no hospital Royal Free. No entanto, admitiu o especialista, a procura deve ser reduzida. Butler disse que, provavelmente, apenas dez a 15 pessoas na Grã-Bretanha deverão preencher os requisitos para realizar a cirurgia.
 

 

 

Comentários
 

 

Christine Piff, que fundou a organização sem fins lucrativos «Let''s Face It» e paciente de um tipo raro de cancro facial há 25 anos, recebeu com agrado a possibilidade de um transplante de rosto. Piff rebateu a ideia de que o transplante significará que as pessoas transplantadas acabem por viver com o rosto de um morto. «Todos somos mais do que um rosto, não é isso que nos vai levar a ter a personalidade do outro. Cada um continua a ser o que é».
 

 

Piff referiu-se ainda à hipótese de uma possível condenação moral do procedimento com uma pergunta simples. «Se podemos doar outros órgãos do corpo, por que não podemos doar um rosto?».
 

 

Butler comentou ainda que umas das possíveis técnicas que poderá evitar as semelhanças totais com o dador seria uma aplicação como uma capa cutânea de gordura, pele e vasos sanguíneos transplantados no osso existente, deixando os pacientes com muitas das suas próprias características faciais.
 

 

Para o psicólogo Aric Sigman, em declarações à BBC, a operação poderia privilegiar pessoas com rostos gravemente desfigurados. «Só não sabemos o que vai acontecer quando uma pessoa acordar com o rosto de outra». E alertou: «É bem possível que não demore muito até que isso comece a ser usado por motivos estéticos».
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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