Transplante de órgãos congelados?

Primeira experiência em ratos com resultados prometedores

25 janeiro 2002
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O sucesso do transplante de um órgão depende do facto da sua recolha do doador ser imediatamente seguida da sua implantação no receptor, antes que se comecem a formar cristais de gelo que rebentam as células e destroem os tecidos. Isto constitui a maior limitação à transplantação de órgãos.
 

 

São vários os trabalhos de investigação que procuram ultrapassar este problema. É o caso do trabalho realizado por um grupo de investigadores canadianos na Universidade McGill, em Montreal, dirigido por Roger G. Gosden. No relato deste trabalho, publicado na edição de ontem da revista Nature, os autores descrevem o sucesso que obtiveram no transplante de ovários de ratas, após terem sido congelados em azoto líquido.
 

 

Gosden e os seus colegas recolheram os ovários, juntamente com as trompas de falópio, a ratinhas de laboratório e embeberam-nos totalmente numa solução protectora. Em seguida, este material biológico foi sujeito a um processo de congelação muito lento e, depois, foi guardado durante uma noite em azoto líquido. O processo de conservação de tecidos biológicos a baixas temperaturas, em azoto líquido, é desegnado por criopreservação. O passo seguinte foi o da descongelação dos órgãos e o seu transplante para ratas geneticamentte idênticas às doadoras, por forma a minimizar os riscos de rejeição dos tecidos transplantados.
 

 

Embora os ovários transplantados tenham apresentado uma redução significativa nas suas funções depois de terem sido congelados, mais de metade ovularam normalmente e, inclusivamente, uma das ratinhas transplantadas engravidou.
 

 

A grande esperança da equipa de Gosden é que esta técnica possa ser aplicada à transplantação de órgãos em humanos. Uma vez que esta experiência foi realizada com ovários, estes cientistas gostariam que isso pudesse ajudar as mulheres que, em alguma altura da sua vida, tenham de fazer quimioterapia correndo sérios riscos de ficarem estéreis. Isso seria evitado se fosse possível criopreservar os ovários destas mulheres para depois os reimplantar depois dos tratamentos de quimioterapia.
 

 

Quando solicitado para comentar esta descoberta à Nature, o director do departamento de investigação e desenvolvimento do Organ Recovery Systems, em Charleston, Carolina do Sul (EUA), Michael Taylor, duvida que esta técnica possa resultar na espécie humana. Para este investigador, enquanto que os ovários utilizados na experiência são aproximadamente do tamanho de um feijão os de uma mulher são bem maiores e quanto maior for o tamanho do órgão, maior é a sua susceptibilidade à criopreservação.
 

 

Taylor defende que, de momento, não é possível extrapolar os resultados obtidos com a transplantação de órgãos criopreservados de tamanho tão reduzido como os de rato para órgãos humanos, substancialmente maiores. Segundo este especialista, talvez isso venha a ser possível quando as técnicas de criopreservação forem aperfeiçoadas e possam ser aplicadas à escala do tamanho dos órgãos humanos.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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