Toxicodependência: factores ambientais podem ser os responsáveis por recaídas

Revela estudo

09 outubro 2001
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As alterações cerebrais provocadas pelo uso de drogas podem levar alguns indivíduos dependentes de substâncias químicas a permanecerem susceptíveis a recaídas -- talvez de forma permanente -- e os medicamentos actualmente disponíveis não parecem ser suficientemente eficazes para as evitar. Esta é a conclusão de um estudo realizado em ratos.
 

 

De acordo com os autores deste trabalho, Kent C. Berridge e Cindy L. Wyvell, da Universidade de Michigan (EUA), uma possível explicação para as recaídas contínuas entre os toxicodependentes pode ser uma alteração química cerebral chamada «sensibilização».
 

 

Essa sensibilização será a responsável pelo aumento duradouro dos níveis cerebrais de dopamina, substância associada à «resposta agradável» do uso de drogas, relatam os investigadores na edição de 1 de Outubro da revista Journal of Neuroscience.
 

 

Neste relato científico, os especialistas sugerem que a sensibilização provoca uma necessidade excessiva, mesmo depois que da droga entrar no organismo do indivíduo dependente e, nas pessoas sensibilizadas, qualquer factor ambiental associado ao uso - como um som, por exemplo - pode provocar uma recaída.
 

 

Estes factores ambientais indutores da recaída podem incluir o som de cubos de gelo no caso de alcoólicos ou o som de um isqueiro ao ser aceso no caso de um fumador, explica K. C. Berridge em entrevista à agência Reuters.
 

 

Recompensa associada ao estímulo
 

 

Os cientistas testaram a sua teoria treinando ratos para se recompensarem pressionando uma alavanca para obterem tabletes de açúcar. Os animais aprenderam a associar este prémio ao som que serviu como estímulo ambiental.
 

 

Alguns ratos também foram «sensibilizados» para anfetaminas. Dez dias depois, os animais receberam injecções de anfetaminas ou de placebo e foram expostos ao factor ambiental associado ao tablete de açúcar.
 

 

As conclusões do trabalho revelam que os animais sensibilizados pressionaram a alavanca em resposta ao estímulo ambiental com uma frequência duas vezes maior, comparados a ratos não sensibilizados. Segundo os investigadores, este facto indica um maior desejo de recompensa nestes animais.
 

 

A resposta ao estímulo ambiental ocorreu independentemente dos ratos terem recebido, ou não, a segunda dose de anfetaminas, o que sugere, de acordo com os autores deste trabalho, que foi a sensibilização anterior com anfetaminas, e não a dose recente de droga, que desencadeou a resposta dos animais.
 

 

Teoria polémica
 

 

De acordo com K. C. Berridge, a hipótese de que a sensibilização pode provocar uma recaída é a teoria mais polémica para explicar o comportamento de dependência a substâncias químicas e este estudo demonstrou que, em ratos, esta teoria tem validade científica.
 

 

O mesmo investigador afirmou à Reuters que «...os resultados também podem ser verdadeiros para as pessoas, mesmo que as provas concretas desta teoria para dependência química em seres humanos demorem dez anos para serem obtidas».
 

 

Uma das implicações directas deste estudo é que, provavelmente, os medicamentos actualmente utilizados para reduzir os sintomas de privação ou para bloquear o prazer obtido com o consumo de drogas podem não ser suficientes para impedir a recaída. Daí o insucesso de alguns desses medicamentos, explica K. C. Berridge. Na opinião deste investigador, uma pessoa sensibilizada por drogas pode ter uma recaída causada por factores ambientais muito tempo depois do início da abstinência e, possivelmente, até com o uso de medicamentos.
 

 

Este trabalho é, certamente, um contributo importante para desenvolver medicamentos que impeçam o início do processo de sensibilização, «... evitando assim a recaída quando os medicamentos disponíveis falharem.»
 

 

No entanto, K. C. Berridge lembrou ainda que algumas pessoas são sensibilizadas de forma mais intensa e mais fácil, afirmando que «...provavelmente, apenas uma pequena parcela da população corre um risco elevado de serem sensibilizados para estes estímulos que provocam recaídas.»
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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