Tem a certeza que o seu filho é parecido consigo?

Semelhanças entre pais e filhos são meras coincidências, refere estudo

12 março 2002
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Não há como evitar. Um dos primeiros comentários feitos pela família quando nasce uma criança apontam todos para as parecenças que os bebés têm com os seus progenitores. «Que bonito, é tal e qual a cara da mãe», diz a avó materna. Mas, caso seja a mãe do recente pai babado, o comentário favorece mais o filho. «Que lindo bebé, é igual ao pai com a mesma idade».
 

 

Deixando as emoções de lado, em termos científicos será que as crianças realmente «herdam» o queixo dos pais e os olhos das mães?
 

 

Um estudo italiano refere que não é bem assim. A percepção de um bebé se parecer com um dos progenitores parece ser feita mais com base na suposição de que ambos são geneticamente relacionados, sugere o estudo.
 

 

Paola Bressan, chefe da equipa que estudou o tema e investigadora do departamento de psicologia da Universidade de Pádua, afirma que, de facto, pais e filhos têm mais coisas em comum do que meros desconhecidos, mas, continua a cientista, este efeito é pequeno. «Quando comentamos a semelhança de um bebé com os seus pais, vemos uma semelhança, mesmo que ela não exista, pois acreditamos nela. Não estamos a mentir de modo consciente, antes a iludir-nos».
 

 

Estas afirmações científicas, no entanto, podem não agradar aos pais-galinhas. A verdade é que os investigadores efectuaram três estudos com homens e mulheres aos quais foi solicitado estimar a semelhança facial de pares de crianças e adultos por meio de fotografias.
 

 

Os voluntários fizeram essa análise enquanto recebiam informações falsas, verdadeiras ou não recebiam nenhuma informação sobre o parentesco do bebé com o adulto. Por mais estranho que pareça, o que pesou para que uma pessoa estabelecer o parentesco bebé-adulto foi a informação da existência de uma ligação genética entre ambos, independentemente destas serem verdadeiras. «Os pares de pessoas que os voluntários acreditavam (através das informações difundidas pelos investigadores) serem formadas por pai e filho foram julgados mais parecidos que os restantes – os que os voluntários acreditavam não ter ligação de parentesco directo»
 

 

Para os cientistas, este auto-engano tem em si uma vantagem evolutiva. Ou seja, a sociedade tem interesse em que os pais ajudem a criar os descendentes, mesmo que as crianças não tenham sido geradas por eles. Por esse motivo, pode haver uma necessidade de assegurar aos pais que o suposto filho é realmente deles, mesmo que isso não seja verdade, revela o estudo, avançado pela Reuters, e que será publicado na edição de Maio da revista Psychological Science.
 

 

Segundo Paola Bressan, numa estratégia evolutiva realmente eficiente, um suposto parentesco poderia ser altamente prejudicial. Por isso, refere a investigadora, mesmo que o pai não seja o verdadeiro progenitor, esta auto-ilusão torna-se vantajosa porque, numa sociedade em que o adultério é comum, os bebés considerados filhos de pais oficiais têm mais probabilidades de sobreviver.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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