Talidomida revela-se eficaz no tratamento de melanoma

Primeiros resultados promissores

21 outubro 2001
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De pesadelo nos anos 60 a esperança no tratamento de várias doenças
 

 

Temida pela associação a malformações congénitas graves, a talidomida revela-se hoje como uma droga muito promissora no combate a determinados tipos de cancro.
 

 

Esta substância surgiu como sedativo no início da década de 50. No início dos anos 60, foi prescrita para diminuir os enjoos em mulheres grávidas até que se constatou que as mulheres que tomaram esta substância no primeiro trimestre de gravidez deram à luz crianças com graves malformações congénitas decorrentes dos efeitos teratogénicos da talidomida, como se veio a comprovar posteriormente. Segundo a Organização Mundial de Saúde, hoje em dia ainda sobrevivem cerca de cinco mil vítimas da talidomida.
 

 

Ainda nos anos 60 foi descoberta o poder antinflamatório da talidomida, que era administrada a doentes com eritema nodoso leprosal. Estudos posteriores mostraram que, para além das propriedades antinflamatórias, esta substância também possuía propriedades imunomoduladoras, o que a credenciou para o tratamento de vários tipos de doenças do sistema imunológico.
 

 

Recentemente, esta substância mostrou a sua eficácia no tratamento de mieloma múltiplo, tumor formado por células da medula óssea. Também existem estudos sobre o uso de talidomida no tratamento de outros tipos de cancro como o renal, o cerebral e o pulmonar, além do sarcoma de Kaposi – tumor geralmente associado à SIDA.
 

 

Tratamento de caso isolado revela-se promissor
 

 

Num artigo recentemente publicado no New England Journal of Medicine, uma equipa de médicos da St. Louis University School of Medicine descreve o caso de um homem de 63 anos que apresentou uma regressão tumoral após receber talidomida para o tratamento de melanoma.
 

 

Ao comentar os resultados dos poucos ensaios clínicos realizados ao uso de talidomida no tratamento de melanoma avançado G. Kudva, em entrevista à agência Reuters, afirmou que «foram muito promissores. o nosso doente respondeu de forma inesperada.»
 

 

Justificando o uso desta substância no tratamento deste tipo de tumor, este investigador afirmou que a escolha se baseou nas reconhecidas propriedades anti-tumorais, nomeadamente na inibição da produção do factor de necrose tumoral (TNF-a) e na situação clínica do doente, já que este tinha sido acometido por um derrame recente que o paralisou e inviabilizou qualquer tratamento cirúrgico, quimioterapia ou outras terapias oncológicas.
 

 

Os médicos removeram as lesões cancerígenas da pele do paciente para verificar se ressurgiam – situação muito comum no melanoma. Depois da remoção das lesões, foi administrada talidomida em doses diárias. A administração diária de talidomida no tratamento de cancros tem, de acordo com o coordenador deste trabalho, efeitos colaterais relativamente moderados.
 

 

De acordo com os médicos envolvidos neste caso, a eficácia da talidomida no tratamento de cancro deve-se ao facto de «cortar» o suprimento de sangue ao tumor além de estimular a resposta do sistema imunológico à doença.
 

 

Seis semanas depois do início do tratamento, os médicos constataram que as lesões tinham diminuído substancialmente e seis meses depois tinham desaparecido por completo. O paciente encontra-se em completa remissão e continua a receber diariamente a dose de talidomida que, entretanto, foi reduzida devido a problemas decorrentes de uma constipação.
 

 

Neste estudo, os investigadores avançam a possibilidade da talidomida ser utilizada no tratamento de outros doentes que padecem de melanoma mas realça que isso exige testes clínicos mais aprofundados, afirmando mesmo: «não nos podemos basear nos resultados de um caso isolado.»
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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