Superstição e doença cardíaca... uma combinação fatal!

Cientistas chamam-lhe «efeito Baskerville»

21 dezembro 2001
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Num estudo que será publicado na próxima edição do British Medical Journal, mas que já pode ser consultado online, sociólogos da University of California, San Diego (EUA), defendem que a superstição pode ser fatal ao coração de chineses e japoneses.
 

 

Estes investigadores propõem mesmo um nome para este fenómeno: «efeito Baskerville». No livro escrito por Sir Arthur Conan Doyle, Charles Baskerville tem um ataque cardíaco fatal resultante de stress psicológico extremo. Doyle, além de escritor, também era médico – será que esta história foi baseada na sua intuição médica ou foi pura ficção literária?
 

 

Foi com esta dúvida que David Phillips e seus colaboradores partiram para esta investigação. De acordo com estes autores, a intuição de Conan Doyle é consistente com muitos estudos laboratoriais que demonstram a ocorrência de alterações cardiovasculares após situações de stress psicológico.
 

 

Orientais temem profundamente o número 4...
 

 

Foi desta forma que estes investigadores pensaram em estudar a forma como a superstição pode constituir um tipo de stress psicológico. Assim eles centralizaram o estudo numa superstição em particular comum a chineses e japoneses. Estes povos temem o número 4. Literalmente. Enquanto que os ocidentais têm receios pelo número 13, os orientais temem o número 4 devido ao facto da sua pronúncia ser muito idêntica à palavra «morte».
 

 

Esta superstição é muitas vezes apontada como razão para desistir de viajar no quarto dia do mês, rejeitar uma matrícula automóvel que inclui o número 4 ou evitar residir numa morada cuja direcção contenha este número.
 

 

O estudo baseou-se numa análise estatística das causas de morte apontadas em certificados de óbito, emitidos nos Estados Unidos entre Janeiro de 1973 e Dezembro de 1998, de mais de 200 mil chineses e japoneses e mais de 47 milhões de norte americanos brancos.
 

 

Entre a amostra de chineses e japoneses, a mortalidade por causalidade cardíaca é maior no 4º dia do mês e, relativamente aos restantes dias da semana, é cerca de 7% superior. Este efeito é muito evidente entre os americanos de ascendência chinesa e japonesa previamente afectados por uma doença crónica do coração. Os investigadores não encontraram nenhum pico de mortalidade entre os norte americanos brancos no dia 13.
 

 

É a este facto que os sociólogos chamam o «efeito Baskerville». A causa destas mortes é, provavelmente, gerada pelo efeito do excesso de stress, resultante da superstição, num coração já debilitado.
 

 

Porquê «efeito Baskerville»?
 

 

A explicação para este efeito de stress mortal, denominado «efeito Baskerville» é dada no livro de Sir Arthur Conan Doyle «O Cão dos Baskerville». Conan Doyle descreve a morte de Charles Baskerville como resultante do terror suscitado pela lenda do terrível cão dos Baskerville, que provoca uma crise cardíaca fatal num homem de coração frágil.
 

 

No entanto, os autores propõem explicações alternativas ao «efeito Baskerville», segundo as quais é possível que as pessoas que sofrem de doenças cardíacas crónicas e que têm a superstição oriental do «dia número 4», possam alterar os seus hábitos alimentares, aumentar o consumo de álcool, deixar de tomar os medicamentos ou, ainda, tomar doses excessivas dos mesmos, «descarregando» dessas formas a tensão gerada por aquele dia».
 

 

Os autores acabam por concluir que os resultados deste estudo são consistentes com a famosa história da literatura inglesa e afirmam mesmo que o «efeito Baskerville» existe tanto na ficção como na vida real, o que sugere que além de Sir Arthur Conan Doyle ter sido um escritor de excepção, também foi médico dotado duma intuição científica excepcional.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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