Stephen Jay Gould: paleontólogo do acaso
21 maio 2002
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Grande nome da teoria moderna da evolução, o paleontólogo norte-americano Stephen Jay Gould era uma figura marcante do darwinismo, apesar de rejeitar o gradualismo, salientando o papel crucial do acaso na emergência do homo sapiens.
 

 

Biólogo, historiador das ciências e crítico social, este professor de Harvard, um dos cientistas mais conhecidos do grande público internacional, morreu segunda-feira aos 60 anos, em Nova Iorque, em consequência de um cancro no cérebro.
 

 

Autor de duas dezenas de livros de divulgação científica e ensaios críticos sobre as relações entre ciência e religião, foi eleito em 1998 presidente da Associação norte-americana para o avanço da ciência (AAAS), a primeira organização científica dos Estados Unidos.
 

 

"Era um escritor maravilhoso, dotado de uma enorme envergadura intelectual e de uma grande consciência social", sublinhou Ellen Goldensohn, redactora chefe da revista Natural History, que publicou durante 25 anos as suas crónicas mensais.
 

 

Este apaixonado de basebol e ópera sobreviveu a um cancro do abdómen diagnosticado em 1982. Casou e foi pai de dois filhos.
 

 

Nascido a 10 de Setembro de 1941 em Nova Iorque, o seu amor pela paleontologia despontou aos cinco anos de idade durante uma visita ao Museu de história natural da cidade acompanhado pelo seu pai, um estenógrafo judiciário apaixonado pelo naturalismo.
 

 

Uma paixão de infância que não esmoreceu durante a adolescência, assim como o seu entusiasmo pelos New York Yankees, a equipa de basebol local.
 

 

O jovem Gould obtém um diploma em geologia em 1963 pelo Antioch College, depois um doutoramento em paleontologia pela Universidade da Columbia quatro anos mais tarde, antes de aceitar uma cadeira de geologia e zoologia em Harvard (Massachusetts), onde vai leccionar durante toda a sua carreira.
 

 

Os seus primeiros estudos empíricos, consagrados aos fósseis de invertebrados e aos caracóis que eles caçavam nas Bermudas, levaram-no a questionar o gradualismo da teoria de Darwin e o seu conceito de evolução e de selecção natural das espécies por via da adaptação lenta.
 

 

 

Crítica radical
 

 

A partir de 1972, encetou, juntamente com o seu colega Niles Eldredge, uma crítica radical ao adaptacionismo, apontando as contradições existentes no darwinismo e as "falhas" das linhagens fósseis que as alterações lentas por acreção (tipo de depósito) não conseguiam explicar.
 

 

Para Gould, a evolução funciona de forma diferente, por movimentos bruscos: episódios de crise, seguidos de especiações rápidas e por vezes violentas em resposta, nomeadamente, às mudanças climatéricas, aos quais se sucedem períodos relativamente estáveis.
 

 

Daí o nome "equilíbrios pontuais", com o qual o cientista apadrinhou a sua teoria.
 

 

Este neo-darwinismo conduz a uma outra conclusão "gouldiana" célebre: o homem é fruto do acaso.
 

 

"Os seres humanos não são o resultado final de um progresso evolucionista previsível mas mais uma segunda intenção cósmica fortuita, um minúsculo ramo no enorme bosque arborescente que é a vida", escreveu.
 

 

Para Gould, se a vida sobre a Terra partisse do zero, mesmo um milhão de vezes, não haveria todas as probabilidades dela produzir um mamífero e ainda menos uma criatura semelhante ao homo sapiens.
 

 

 

Fortes convicções
 

 

Cátedra poderoso, Gould participou nos combates intelectuais norte-americanos, não hesitando, por exemplo, em testemunhar nos tribunais contra os fundamentalistas protestantes "criacionistas" que exigem que seja ensinada nas escolas a versão bíblica da criação.
 

 

Escritor humanista, eloquente e elegante, foi autor de várias obras científicas e outras mais populares, como "O polegar do panda" (1980), "O sorriso do flamingo" (1985) ou ainda "O parque dos dinossauros" (1995).
 

 

Stephen Jay Gould tinha acabado de publicar na Primavera a sua "obra máxima", um livro de 1.464 paginas com o resumo de 40 anos de trabalho, "A estrutura da teoria de evolução".
 

 

Fonte: Lusa
 

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