Solidão: por que motivo pode causar doença?

Estudo publicado nos “Proceedings of the National Academy of Sciences”

30 novembro 2015
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Investigadores americanos descobriram como a solidão desencadeia respostas fisiológicas as quais podem, em última análise, conduzir ao aparecimento de doenças e aumentar o risco de morte prematura em cerca de 14% dos idosos, dá conta um estudo publicado nos “Proceedings of the National Academy of Sciences”.
 
O estudo levado a cabo pelos investigadores da Universidade de Chicago, nos EUA, e realizado em humanos e em macacos Rhesus demonstrou que a solidão conduz à sinalização do stress de luta ou fuga, que pode afetar a produção de um tipo de células imunitárias – os leucócitos.
 
Os investigadores já tinham identificado, em estudos anteriores, uma associação entre a solidão e um fenómeno denominado por resposta transcricional conservada à adversidade ou CTRA (sigla, em inglês). Esta resposta é caracterizada por um aumento da expressão de genes envolvidos na inflamação e uma diminuição da expressão de genes envolvidos nas respostas antivirais. Essencialmente, os indivíduos solitários têm uma resposta imunológica menos eficaz e um nível maior de inflamação comparativamente com pessoas não-solitárias.
 
Para o estudo, os investigadores analisaram a expressão de genes em leucócitos, células do sistema imunológico que estão envolvidas na proteção do organismo contra bactérias e vírus.
 
O estudo apurou que, tal como esperado, os leucócitos dos humanos e macacos solitários mostraram os efeitos da CTRA, ou seja, um aumento na expressão de genes envolvidos na inflamação e uma diminuição na expressão de genes envolvidos em respostas antivirais. Verificou-se também que havia novas peças importantes de informação relativamente aos efeitos da solidão no organismo.
 
Os investigadores constataram que a solidão previu a expressão futura de genes envolvidos na CTRA, a qual foi medida após um ano ou mais. Curiosamente, a expressão destes genes também previu a solidão constatada após um ano ou mais. A expressão de genes dos leucócitos e a solidão parecem ter um relacionamento recíproco, sugerindo que cada um deles pode propagar o outro ao longo do tempo. Estes resultados foram específicos para a solidão e não podem ser explicados por depressão ou stress
 
Posteriormente, os investigadores analisaram os processos celulares envolvidos na ligação entre experiências sociais e expressão dos genes envolvidos na CTRA em macacos com um elevado grau de isolamento social. Tal como os humanos solitários, os macacos demonstraram uma maior atividade da CTRA. Verificou-se também níveis elevados de um neurotransmissor envolvido na resposta de luta-ou-fuga, a norepinefrina.
 
Investigações anteriores descobriram que a norepinefrina pode estimular a produção de células estaminais sanguíneas na medula óssea de forma a ser produzido um monócito imaturo que apresenta níveis elevados de expressão de genes envolvidos na inflamação e níveis baixos de genes associados à resposta antiviral. Tanto humanos como macacos solitários tinham níveis elevados de monócitos no sangue. Verificou-se ainda que macacos que eram repetidamente submetidos a situações stressantes apresentavam um aumento dos níveis de monócitos imaturos. Após terem analisado os resultados, os investigadores concluíram que a expressão dos genes envolvidos na CTRA está amplificada na população de leucócitos para aumentar o número de monócitos imaturos.
 
O estudo apurou ainda que esta mudança do CTRA relacionada com os monócitos tem consequências reais para a saúde. Verificou-se que nos macacos solitários, o vírus da imunodeficiência símia (o equivalente ao VIH nos humano) crescia mais rapidamente tanto no sangue como no cérebro.
 
Estes resultados suportam um modelo mecanicista na qual a solidão resulta na sinalização do stress de luta-ou-fuga, o que aumenta a produção de monócitos imaturos, conduzindo a um aumento de expressão de genes inflamatórios e a uma resposta antiviral afetada. Os “sinais de perigo” ativados no cérebro pela solidão afetam, em última análise, a produção de leucócitos. A alteração resultante da quantidade de monócitos pode tanto propagar a solidão como contribuir para os riscos de saúde associados.
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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