Socorro!

Ponha-se o leitor no papel do consumidor de drogas, opinião do Dr. Manuel Pinto Coelho

17 abril 2002
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Se tivesse de mão beijada oferecida gratuitamente por um técnico de saúde, ao dobrar da esquina, um substituto fiel da “sua” heroína, que ao contrário da droga de rua lhe desse a garantia de que não estava adulterada por produtos indesejáveis, oferecido comodamente numa embalagem convenientemente personalizada, com 40% dos seus custos comparticipados pelo Estado, e que ao contrário do “pó” da rua, lhe desse 8 a 12 horas de celestial bonança, por alma de quem é que ia modificar a sua vida para sair da sua condição de dependente, por alma de quem é que iria alterar o que quer que fosse dentro de si em ordem a encontrar forças para desenvolver novas estratégias de evitamento das situações tradicionais de consumo, numa palavra, por alma de quem é que iria sentir necessidade de mudar ?
 

 

Por outras palavras, se fosse dito a alguém que tivesse um problema de saúde, que para sair dele não poderia comer carne, e depois lhe fosse colocado um “ fillet mignon” debaixo dos queixos... quem se conseguiria aguentar? Quem se conseguiria tratar nessas condições?
 

 

Alertados por outros intervenientes na área da toxicodependência e pela nossa própria experiência pessoal, para a invasão do território nacional pela segunda vez em 10 anos, dum opiáceo semi-sintético com as características da heroína, falsa e perigosamente apresentado como tratamento para a heroínodependência - o “Subutex”, - sentimo-nos obrigados mais uma vez, ( já o fizemos há já algum tempo também sob a forma de artigo de opinião, no “Diário de Notícias” quando a mesma substância naquela altura denominada de “Buprex” invadiu o nosso mercado ) a levantar a nossa voz em ordem a tentar evitar as consequências dramáticas que, se nada for feito, se poderão fazer sentir a curto prazo na nossa sociedade. Poder-se-á dizer que o tratamento de substituição com o “Subutex” ou mesmo com a Metadona, têm indicação específica como é o caso de situações comprovadamente refractárias a outras abordagens terapêuticas, casos de manifesta e irreversível desinserção social, gravidez ou situações de infecciosidade grave ou de prognóstico reservado e que não deverá ser receitado fora dos casos em que tem indicação, só que na prática, toda a gente que trabalha nesta área sabe, que dificilmente se resistirá ao clemente e persuasivo pedido do dependente que, qual mestre supremo na arte de seduzir, facilmente conseguirá convencer o seu técnico, da sua “premente necessidade”, mesmo que o seu padrão se afaste daquele acima enunciado.
 

 

 

Todo o tratamento de substituição que se preze deverá ser encarado na perspectiva de se conseguir atingir uma plataforma de equilíbrio físico, psicológico, social e familiar que poderá permitir posteriores tentativas em programas livres de drogas, devendo ser sempre complementado por uma boa abordagem psicoterapêutica, sendo que uma das suas principais vantagens reside precisamente na aproximação que através dessa via, se consegue operar em relação ao técnico que trata o dependente.
 

 

Só que, o que o dia a dia diz ao técnico que trata estes problemas, é que é muito difícil comunicar com quem quer que seja que esteja condicionado por um produto como qualquer opiáceo, natural ( Heroína ) ou de síntese ( Metadona ou “Subutex” ) que modifica pela sua acção, a sua disposição, os seus sentimentos e, após algum tempo, a sua própria personalidade. Psicoterapia nestas condições? Só com muito boa vontade!
 

 

Parece-nos oportuno referir aqui também o que se passa com muitos técnicos de saúde das grandes cidades e não só, que para se verem livres do “chato do drogado que até está a dar mau aspecto à sala de espera”, se apressam a dar-lhe aquilo que ele quer, embora saibam muito bem, no seu íntimo, que está longe de ser aquilo que ele precisa. Dir-se-á que a ainda actual política em matéria de toxicodependência é a de distribuir sob controle médico, drogas de substituição como a Metadona e o “Subutex”, a fim de reduzir os riscos sanitários e sociais que o consumo de drogas ilícitas como a heroína necessariamente implica, fazendo com que este consumo deixe de ter um cunho privado e passe a estar sob o controle do Estado.
 

 

Só que há que ter em linha de conta que a redução de riscos quando se torna um modo de gestão do conjunto de problemas levantados pela toxicodependência, leva à banalização da toxicodependência, que por sua vez vai incitar pouco ou nada os toxicodependentes a mudar. Ao que nós assistimos é, não se duvide, a mais uma poderosa investida dos farmacocratas, que com as drogas de substituição como a buprenorfina ( Subutex ) procuram e conseguem com a passividade de todos nós, desenvolver tratamentos farmacológicos até para as alterações de comportamento (!!!), forjando soluções químicas para um problema que não é químico, dando razão aos que dizem que a indústria farmacêutica acabou por se tornar a partir do meio deste século, um dos mais potentes canais de alimentação, senão mesmo da génese das toxicodependências, recebendo em ambas as mãos a galinha dos ovos de ouro, pela utilização de um meio que se insurge perversamente contra os fins que pretende servir, ou seja, tratar.
 

 

Costuma-se dizer que com o mal - neste caso o bem – dos outros podemos nós bem. Só que num tal ambiente, torna-se difícil para não dizer impossível, defender junto dos toxicómanos que vêm solicitar uma regulação da sua toxicodependência, a ideia do tratamento e isto é demasiado grave para se poder deixar passar em claro pela possibilidade real de poder comprometer assim gravosamente as gerações vindouras.
 

 

Dito de outra maneira, quando a oferta do tratamento não incita à mudança, a procura logicamente toma o mesmo sentido, reduzindo-se dramaticamente o espaço destinado ao tratamento dos toxicodependentes, transmitindo-se quer aos técnicos de saúde quer aos próprios dependentes no terreno, a convicção de que os toxicómanos não podem mudar. É contra este estado de coisas que me parece urgente lutar quanto antes, pois cada dia que passa pode contribuir exponencialmente para agravar toda esta questão, transmitindo a impressão de que não somos capazes de controlar o nosso mundo, como indivíduos, como famílias e como comunidades, e “last but not the least”, fazendo cair por terra ingloriamente todo o trabalho que muitos intervenientes nesta área, de boa fé há muitos anos desenvolvem. A palavra pois aos políticos!
 

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