Ser kamikaze não está nos genes

Antropólogo explica teoria de motivação

02 junho 2003
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Ninguém nasce com tendência para matar ou morrer por um objectivo. É esta a conclusão do o antropólogo norte-americano Scott Atran. Num artigo publicado na revista Science, Atran disse que os Estados Unidos, podem estar equivocados em muitos dos argumentos que lançaram para justificar a guerra contra o terrorismo.
 

 

Para o antropólogo, a defesa de uma causa por meio de um acto extremo, como um ataque suicida, não é algo inerente ao ser humano. Tudo porque, os homens-bomba são manipulados por treinadores que sabem activar instintos e emoções básicos.
 

Membro do Instituto Jean Nicod, de Paris, e da Universidade de Michigan em Ann Arbor, o antropólogo refere que grupos como a rede terrorista al Qaeda usam técnicas sofisticadas para criar kamikases como os 19 homens que mataram cerca de três mil pessoas nos atentados de 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e Washington. E assegura que os suicidas não estão «loucos» quando agem, mas são, sim, doutrinados. «Creio que estes grupos conseguem manipular emoções inatas... da mesma forma que a indústria do fast-food e a da pornografia manipulam desejos inatos», explicou Atran. E acrescentou: «Esta manipulação cria um compromisso sincero, igual ao que sente uma mãe quando se sacrifica por seu filho».
 

 

Atran, que viveu em Jerusalém e fez a sua própria investigação, além de analisar as de outros, percebeu que muitos dos atacantes suicidas são relativamente ricos e bem educados. Ou seja, não se pode dizer que ajam por desespero. Ao contrário, são manipulados por líderes que sabem como tocar e despertar instintos semelhantes à necessidade de comer e se reproduzir. «E fazem isso com muita eficácia», observou.
 

 

«A minha opinião é de que as pessoas estão completamente equivocadas na forma de abordar o assunto», disse. «Muitas vezes pensam que estas pessoas estão loucas. Mas elas não têm tendências suicidas, nem famílias pobres. Ao contrário, parecem estar melhor do que as pessoas à sua volta. O presidente Bush tem dito que a forma de combater o terrorismo é melhorar a educação e lutar contra o analfabetismo, mas isso é em vão».
 

 

Para o especialista, também é impossível «vender» os valores dos norte-americanos a estes grupos. «Se as pessoas já estão convencidas de uma postura ideológica que é antagónica à sua, bombardeá-las com informações relacionadas à sua só faria aumentar o seu antagonismo», acrescentou.
 

 

Segundo Atran, a melhor estratégia seria isolar os extremistas. «Penso que os Estados Unidos e os seus aliados deveriam dar poder aos moderados dentro de cada comunidade», sugeriu. Chegar a uma solução para o conflito entre árabes e israelitas também serviria para melhorar a situação, segundo o antropólogo.
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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