Restrição calórica pode proteger o cérebro

Estudo publicado na “Aging Cell”

01 novembro 2016
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A redução da ingestão de calorias em 40% pode ajudar a proteger os neurónios dos danos causados pelo excesso de cálcio associado a doenças como o Alzheimer, adianta um estudo brasileiro publicado na revista científica “Aging cell”.
 
Estudos com diferentes espécies animais têm apontado para uma relação entre a restrição calórica, ou seja, comer menos, e uma maior esperança de vida. Nesse sentido, cientistas do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), no Brasil, procuraram compreender os mecanismos envolvidos nesta relação, visto que tal poderá “apontar novos alvos para o desenvolvimento de drogas contra diversas enfermidades”, indica Ignacio Amigo, autor principal do estudo, em comunicado da Agência FAPESP.
 
De acordo com o cientista, o cálcio é uma molécula que participa no processo de comunicação entre os neurónios. Porém, a entrada excessiva desta molécula nos neurónios (denominada exotoxicidade), devido à superativação dos recetores para o neurotransmissor glutamato, provocada por doenças como o Alzheimer, pode causar danos ou até mesmo a morte destas células cerebrais.
 
Para analisar o impacto da restrição calórica em condições de exotoxicidade, os cientistas usaram dois grupos de ratinhos. O primeiro foi alimentado livremente com ração, durante 14 semanas. O segundo grupo foi alimentado durante o mesmo período, mas com uma quantidade controlada de ração, com redução de 40% das calorias ingeridas. Este grupo recebeu ainda um suplemento de vitaminas e minerais para evitar que os níveis destes ficassem abaixo do ideal com a diminuição da quantidade de ração.
 
Os cientistas injetaram então ácido caínico, uma molécula análoga ao neurotransmissor glutamato e com efeito semelhante (induzir a entrada de cálcio nos neurónios), porém mais persistente, para mimetizar a epilepsia.
 
Visto que estudos anteriores sugeriram ser possível proteger o cérebro do excesso de cálcio através do aumento desse mineral pelas mitocôndrias, os cientistas isolaram os organelos do cérebro dos ratinhos de ambos os grupos. 
 
Segundo Amigo, “à medida que adicionávamos cálcio no meio, foi possível observar que a captação era maior nas mitocôndrias do grupo que ingeriu menos calorias”.
 
De seguida, ambos os grupos de ratinhos foram injetados com ciclosporina, um fármaco capaz de inibir a produção da proteína ciclofilina D, o que permite às mitocôndrias aumentarem a captação de cálcio.
 
Enquanto as mitocôndrias do primeiro grupo de ratinhos passaram a captar maior quantidade do mineral, aquelas do grupo submetido à restrição calórica permaneceram iguais, ou seja, a diferença observada no teste anterior desapareceu.
 
Contudo, análises revelaram que os níveis da proteína ciclofilina D eram iguais nos dois grupos de ratos. Os investigadores descobriram então que a redução de ingestão calórica “induziu um aumento nos níveis de uma proteína chamada SIRT3, que é capaz de modificar a estrutura da ciclofilina D”. “Ela remove um grupo acetil da molécula – processo conhecido como desacetilação – e isso inibe a atividade da ciclofilina D, fazendo as mitocôndrias captarem mais cálcio e tornando-as insensíveis à ciclosporina”, explicou Amigo.
 
Tal como já observado em estudos anteriores de outros grupos de investigação, a equipa de cientistas notou que nas mitocôndrias dos ratinhos com restrição calórica registou-se um aumento de algumas enzimas antioxidantes e da enzima superóxido dismutase (SOD). Segundo os cientistas, tais resultados sugerem um aumento na capacidade cerebral de lidar com o stress oxidativo – condição que está na génese de várias doenças degenerativas.
 
Na opinião de Amigo, as proteínas que tiveram a atividade alterada pela intervenção nutricional no atual estudo são potenciais alvos a serem explorados no tratamento de doenças em que há perda neuronal por excitotoxicidade.
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A. 
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