Reality shows e ética…

... a polémica continua

27 setembro 2001
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O início de novas séries e de concursos do tipo «novela da vida real» já é um ritual de início de Setembro a que as televisões portuguesas nos habituaram. Se não somos espectadores regulares destes programas, conhecidos como reality shows, já ouvimos falar de todos: Big Brother, Confiança Cega, Surviver, etc... a agenda televisiva está repleta de versões para todos os gostos.
 

 

As equipas de produção destes programas têm os seus próprios psicólogos que trabalham arduamente na montagem e na monitorização das situações que são levadas até aos ecrãs. Richard W. Levak é um desses psicólogos e faz parte da equipa que selecciona os concorrentes para estes concursos na cadeia de televisão norte americana CBS.
 

 

Richard W. Levak também é professor na California School of Professional Psicology, em San Diego (EUA) e admitiu recentementemente no encontro anual da American Psychological Association – APA – que se estão a ultrapassar alguns limites e reconhece que proteger os valores da sociedade faz parte do código de ética da APA.
 

 

Naquele encontro, Levak colocou uma questão pertinente aos seus pares: «Quantos de vós, como psicólogos, tem um profundo mau estar relativamente aos reality shows?» Oitenta por cento dos seus colegas levantaram a mão. «Eu sinto exactamente a mesma coisa – mas faço-os!», concluiu.
 

 

Mas Levak não era o único psicólogo naquele congresso envolvido na produção destes concursos. Kate M. Wachs, psicóloga também envolvida nestas produções televisivas, salienta que quatro dos cinco programas com maior audiência nos Estados Unidos são reality shows. Segundo Wachs, isto acontece porque nós desenvolvemos a necessidade de saber o que os outros andam a «tramar», quer eles sejam uma ameaça ou uma oportunidade sexual, por exemplo.
 

 

Lições do passado
 

 

Kate M. Wachs recordou neste encontro o estudo vergonhoso (assim classificado pela APA) realizado nos anos 70 por Philip Zimbardo da University of Stanford em que este psicólogo recrutou estudantes de psicologia para desempenharem papéis de «guardas» e de «prisioneiros» num cenário que reproduzia uma prisão estatal americana. O estudo deveria ter terminado quando os «guardas» começassem a ser abusivos para os «prisioneiros»... mas não foi assim. De acordo com Wachs, esta experiência serviu pelo menos para introduzir novas directrizes éticas na investigação científica na psicologia.
 

 

Wachs afirma que o estudo de Zimbardo mostra como «as pessoas, quando colocadas em situações (não reais) envolventes desenvolvem comportamentos verdadeiramente convincentes.» Esta é a natureza dos reality shows: encontrar a natureza envolvente de uma situação, reproduzi-la tentando prolongá-la pelo maior período de tempo possível e levá-la aos espectadores de uma forma convincente e, talvez o mais importante, envolver o próprio espectador na situação.
 

 

Como se faz nos Estados Unidos
 

 

M. Gene Ondrusek foi o primeiro psicólogo a trabalhar na produção de reality shows nos Estados Unidos e descreve o percurso dos concorrentes nos programas americanos. Na fase de escolha dos concorrentes, os psicólogos são contratados para excluir quer os concorrentes que possam representar qualquer tipo de perigo para os outros quer os que não têm capacidade para ultrapassar as situações de stress que vão surgindo ao longo da trama real. Os concorrentes que devem ser escolhidos são os que têm capacidade para cativar e envolver os espectadores na história real.
 

 

Este escrutínio exige a realização de testes de aptência psicológica dos concorrentes. Após a escolha dos concorrentes, o psicólogo tem de gerir os problemas in loco. Quando os concorrentes perdem ou têm de deixar o programa (como acontece, por exemplo, no Big Brother) o psicólogo é a primeira pessoa com quem eles se encontram. Depois de uma sessão de balanço e de libertação da sua participação no programa, os concorrentes têm apoio psicológico através de consultas por telefone, mesmo depois do programa terminar.
 

 

De acordo com Kate M. Wachs «o balanço da sua participação no programa serve para cada concorrente se libertar da sua experiência no programa e a usar na sua vida própria.» Ainda segundo Wachs, os psicólogos podem ajudar a criar um equilíbrio entre as situações idealizadas para os programas e o bem estar dos concorrentes.
 

 

De facto, nos Estados Unidos, a maior parte das pessoas que participaram em reality shows afirmam que essa experiência contribuiu para melhorar as suas vidas. Mas Richard W. Levak diz que a possibilidade de acontecer o contrário não o deixa dormir à noite.
 

 

E a ética?
 

 

Levak percorreu todos os itens do código de ética da APA e concluiu que todos têm implicações éticas para os psicólogos envolvidos na produção dos reality shows. Um dos maiores dilemas decorrentes do código deontológico da APA é o respeito pela dignidade e direitos individuais.
 

 

«O problema é que são os próprios concorrentes a prescindir, logo à partida, de todos os seus direitos e o que acontece muitas vezes é que o próprio objectivo do programa é que o concorrente perca a sua dignidade», afirma Levak, «e isso é muito complicado para nós», conclui.
 

 

De acordo com a APA, a manutenção da integridade profissional é difícil para estes psicólogos eles têm responsabilidades para com a produção dos programas cujo objectivo ultrapassa largamente os direitos e a dignidade dos concorrentes que lhes confiam os pormenores mais íntimos das suas vidas... e a linha que divide estes interesses é muito ténue!
 

 

Perante os seus pares, M. Gene Ondrusek admitiu a sua repulsa pelo papel que desempenha nestes programas mas não a admite em público. Ele tenta sublimar este sentimento quando faz uma perspectiva histórica do entertenimento: «A reconstrução e a criação de dramas reais para distracção de um determinado público faz-se desde que Sófocles se lembrou de o fazer. A recriação de contextos destinados a envolver e modificar comportamentos dos intérpretes envolvidos e a cativar audiência de um determinado público alvo surgiu com Sófocles.»
 

 

Bem, pode até nem ser nenhuma novidade... já há dois mil anos atrás os Romanos criaram dramas de uma envolvência atroz quando se lembraram de alimentar leões com pessoas. Resta a cada um de nós definir como nos deixamos envolver pelo que nos é mostrado.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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