Radiações electromagnéticas e aborto – estudo confirma relação causa-efeito
11 janeiro 2002
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Televisões, microondas, secadores, máquinas de barbear... vivemos rodeados de aparelhos e máquinas eléctricas que nos ajudam nas mais variadas tarefas do dia a dia. Quando pomos qualquer destes aparelhos a funcionar, é criado um campo de radiações electromagnéticas (CRE) cujas consequências para a nossa saúde tem vindo a ser alvo da atenção dos cientistas – o caso mais estudado e mais mediático é, sem dúvida, o das radiações electromagnéticas associadas à utilização do telemóvel.
 

 

Por ser uma questão que preocupa as pessoas e a comunidade científica, a primeira edição deste ano do jornal de informação científica Epidemiology publica dois artigos referentes a dois estudos, realizados em duas universidades californianas, sobre o risco de aborto espontâneo associado à exposição aos CRE’s.
 

 

Ambos os estudos, por vias metodológicas diferentes, concluem que a exposição a radiações aumenta significativamente o risco de aborto espontâneo. Quando abordado pela New Scientist para comentar estes trabalhos, David Savitz, epidemiologista na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill (EUA), afirmou que estes estudos, na realidade, «representam o alcance de um verdadeiro estado de arte no domínio da investigação das causas associadas ao aborto espontâneo.» Isto porque estes estudos trazem avanços significativos em termos de metodologias científicas aplicadas à investigação nesta área. No entanto, Savitz alerta que a interpretação que os investigadores fazem dos resultados obtidos pode não estar correcta.
 

 

Risco de aborto aumenta com os níveis de exposição...
 

 

Dos dois estudos publicados, o estudo mais relevante, pelo tamanho da amostra estudada, talvez seja o realizado por De-Kun Li e colaboradores, na Kaiser Foundation Research Institute (Oakland).
 

 

Estes investigadores pediram a 1063 mulheres grávidas, todas na 10ª semana de gravidez, para trazerem consigo um aparelho de medição de níveis de radiação electromagnética. Este aparelho foi incorporado num cinto que as voluntárias colocavam sobre o seu ventre e estava programado para medir os níveis de radiação dos CRE’s em cada 10 segundos.
 

 

A primeira conclusão destes investigadores foi que para as mulheres expostas a picos de radiação de 1,6 mT (microTeslas) ou superiores, o risco de aborto espontâneo duplica, comparativamente ao risco calculado para as mulheres não expostas a este tipo de radiações.
 

 

Mas esta equipa ainda obteve um outro dado, talvez mais preocupante: entre as 622 mulheres que afirmaram que o período de registo dos níveis de radiação a que estavam expostas correspondeu precisamente ao um dia de actividade normal. Entre estas, para as que estiveram expostas a picos de radiação mais elevados, o risco de insucesso da gravidez triplicou. Segundo De-Kun Li, estes elementos só vêm confirmar a existência de um efeito de causalidade entre a exposição a radiações electromagnéticas e o risco de aborto espontâneo.
 

 

... e com a idade da mulher
 

 

Mas os efeitos da exposição a CRE’s ainda podem ser mais nefastos – para níveis de exposição semelhantes, o risco de insucesso de uma gravidez aumenta drasticamente com a idade da mãe. Por exemplo, para as grávidas com idade inferior a 30 anos o risco de aborto é de 5% mas sobe para 50% quando a idade da mulher é superior a 45 anos. Ou seja para um intervalo etário de 15 anos, o risco aumenta 10 vezes.
 

 

De-Kun Li e seus colaboradores não se dedicaram a verificar qual a origem dos CRE’s a que as voluntárias estiveram expostas mas o certo é que, à semelhança de veículos eléctricos (como os comboios, por exemplo) também os pequenos electrodomésticos como as máquinas de barbear, os secadores e aspiradores, por exemplo, criam campos electromagnéticos. No entanto, o verdadeiro perigo reside na proximidade da fonte que gera as radiações electromagnéticas: a intensidade das radiações diminui na razão inversa da distância à fonte de radiações.
 

 

Interpretação de resultados suscita muita controvérsia...
 

 

Este tema não deixa de suscitar discórdia. Para D. Savitz, a análise dos resultados do trabalho liderado por De-Kun Li pode estar afectado por uma incorrecta interpretação de resultados. Ele salienta que os abortos ocorridos durante o estudo podem ter sido provocados por outros factores alheios à exposição a CRE’s.
 

 

Para este epidemiologista, as mulheres podem ter uma gravidez saudável mas isso não elimina a possibilidade de terem náuseas, que muitas vezes se prolongam por longos períodos de tempo, e isso pode obrigar a que fiquem em casa e, portanto, não se desloquem para o emprego. Embora o ambiente doméstico também se caracterize pela existência de campos electromagnéticos, a inactividade provocada pelas náuseas permanentes faz com que estas mulheres tenham níveis de exposição muito mais reduzidos do que as que não necessitam de repouso.
 

 

Depois deste comentário, De-Kun Li e co-autores foram rever todos os resultados e despistar a existência de outras causas possíveis para os abortos verificados durante o estudo, tais como medicação tomada durante a gravidez, abuso de actividade física (transporte de pesos, por exemplo) ou abortos anteriores. Depois da intensa revisão da análise dos resultados «nada mudou», afirma De-Kun Li.
 

 

... e cepticismo
 

 

Mesmo depois da revisão deste estudo, Michael Bracken, um outro epidemiologista da Universidade de Yale, mantém-se céptico relativamente ao aumento dos riscos de aborto espontâneo devido à exposição a campos electromagnéticos. Segundo M. Bracken a medição da intensidade das radiações electromagnéticas pode ser feita de muitas maneiras e é claro que os resultados e dados resultantes da análise vão variar de acordo com a metodologia utilizada nas medições e no registo dessas medições. Para ele, «neste domínio, os investigadores correm sérios riscos de ‘sobrevalorizarem’ os dados e assustarem as pessoas».
 

 

De qualquer forma, e independentemente da análise feita por De-Kun Li e co-autores, os picos de radiação registados são inferiores aos limites de exposição recomendados – 1600 mT. Acima deste valor as radiações electromagnéticas induzem a criação de correntes eléctricas no organismo humano que conduzem ao aquecimento localizado de uma determinada região do corpo.
 

 

Para De-Kun Li, os picos de radiação electromagnética registados, embora inferiores ao limite de exposição recomendado, podem ser a causa de um aborto espontâneo porque podem induzir interrupções na comunicação celular. Essas interrupções podem ser muito subtis mas, ao deixar de haver comunicação entre as células fetais e as células da mãe, o organismo da mulher deixa de reconhecer o feto que, por isso, é alvo da acção do sistema imunológico da grávida e a gravidez não tem continuidade.
 

 

Esta explicação avançada por De-Kun Lin não deixa de ser uma hipótese especulativa mas para este epidemiologista defende que «apesar de nós (epidemiologistas) não compreendermos em profundidade tudo o que diz respeito aos campos electromagnéticos, não devemos ignorar esta relação de causalidade, porque ela existe.»
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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