Racismo pode ser eliminado da sociedade

Revela estudo

01 janeiro 2002
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Ao contrário do que sugeriam pesquisas anteriores, um grupo de antropólogos californianos realizou um estudo que parece mostrar que a mente humana pode não estar naturalmente determinada a ver as outras pessoas pela lente da etnicidade.
 

 

Em termos evolutivos, o cérebro pode ter começado a utilizar as características étnicas para classificar os outros não em função das diferenças físicas entre os indivíduos mas como uma necessidade de identificar mais rapidamente os indivíduos que pertenciam a grupos ou tribos rivais.
 

 

«O agrupamento mental dos outros em raças, baseado, portanto, na aparência física dos indivíduos, não é inevitável.» Esta afirmação é de John Tooby, antropólogo na Universidade da Califórnia, Santa Barbara (EUA), numa entrevista concedida à Reuters.
 

 

De acordo com este investigador, ao longo do tempo, a etnicidade parece ter-se tornado numa forma forçada de agrupar as pessoas quando os diversos aspectos da sua aparência física estavam fortemente vinculados a alianças sociais. Quer isto dizer que as características físicas foram como que «politizadas» uma vez que constituem um indicador de que certos indivíduos com determinado aspecto físico são membros de são membros de determinados grupos.
 

 

De acordo com um artigo publicado na edição de Dezembro do Proceedings of the National Academy of Sciences, por Tooby, Robert Kurzban e Leda Cosmides, são vários os estudos que mostram que o cérebro é bastante propenso a distinguir as pessoas desconhecidas a partir do sexo, da idade e da etnia. Para estes investigadores, isso até pode ser verdade relativamente à idade e ao sexo mas eles contestam fortemente a ideia de que o cérebro humano seja compelido a ver naturalmente os outros em termos da sua etnia.
 

 

Etnicidade: um produto da evolução humana?
 

 

Assim, Tooby e os seus dois colaboradores colocaram a hipótese de que o nosso cérebro tenha sido programado, ao longo da evolução da espécie humana, para detectar qualquer sinal visual de diferença física com a única finalidade de avaliar se determinado indivíduo faz parte do mesmo grupo, ou não; determinando, dessa forma, se se trata de um aliado ou de um inimigo.
 

 

Uma vez que os primeiros seres humanos raramente encontravam outros indivíduos diferentes deles próprios, estes antropólogos acham muito pouco provável que a etnicidade (entendida como a classificação dos outros de acordo com determinadas características físicas) seja inacta. Em vez disso, a etnica de um determinado indivíduo foi uma de várias informações visuais de que o cérebro aprendeu a recorrer para verificar se um determinado indivíduo pertencia a um determinado grupo.
 

 

Para avaliar a veracidade desta hipótese, os investigadores realizaram uma série de experiências com voluntários cujo objectivo foi averiguar os factores utilizados para classificar os outros em grupos ou alianças. Os resultados que obtiveram questionam a ideia de que a categorização racial seja uma função automática do cérebro.
 

 

Mesmo nos casos em que os voluntários participantes nesta investigação não eram completamente indiferentes à cor da pele das pessoas, eles recorreram às informações relacionadas com a etnia com uma frequência muito menor quando lhes eram apresentadas outras características para classificar os indivíduos em grupos apropriados. Tais grupos, ou alianças, formados pelos participantes foram compostos de uma forma igualitária, quer pelos indivíduos pretos quer pelos indivíduos brancos.
 

 

A rapidez com que os participantes alteraram o modo como agrupavam os outros surpreendeu muito os investigadores. «Na minha opinião, a maioria dos indivíduos acha que a consciência de raça é um estado mental duradouro e não algo que um novo contexto social pode desfazer rapidamente», afirmou Tooby.
 

 

De acordo com Tooby, a maior parte das pessoas acha que a consciência de etnicidade tem origem na aparência física. Mas, de acordo com este estudo, é a «politização dos grupos» leva o cérebro a agrupar as pessoas a partir da sua aparência física. Este cientista afirma mesmo que os sinais da aparência podem ir muito mais além das características próprias do corpo de cada um, podendo ser tanto as roupas como os hábitos ou até mesmo sotaques.
 

 

No entanto, este investigador enfatiza a«que «é importante não atribuir muita importância a um único trabalho, quando o assunto é algo tão complexo como a questão das diversas etnias humanas.» No entanto «este trabalho deixa-me mais optimista relativamente à rapidez com que o racismo pode ser reduzido quando se dispõe de outras características para além da aparência física», conclui.
 

 

Um exemplo a que Tooby recorre a um artigo recente do New York Times para ilustrar que o racismo pode, de verdade, ser reduzido e, quem sabe, até eliminado da sociedade quando a tensão social em Nova Iorque diminui substancialmente depois dos atentados do passado dia 11 de Setembro.
 

 

Assim fica uma mensagem de esperança para este ano que hoje começa – é possível eliminar as fronteiras raciais entre nós. Para isso basta querermos e procurarmos outras formas de ver os outros que não passem pela cor da sua pele, dos seus olhos, do cabelo... Vamos tentar ver os outros por aquilo que realmente são e, concerteza, o mundo será melhor.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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