Quase metade dos psiquiatras portugueses já ponderou o suicídio

Estudo publicado na Ata Médica Portuguesa

28 dezembro 2015
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Cerca de metade dos psiquiatras portugueses já ponderou o suicídio, um terço pensou mesmo numa forma de o fazer e 4,3% já tentaram matar-se, dá conta um estudo publicado na Ata Médica Portuguesa.
 
O estudo “Comportamento suicidário nos internos de psiquiatria em Portugal: Comparação com a realidade europeia” ao qual à agência Lusa teve acesso foi liderado pelo psiquiatra João Gama Marques.
 
O estudo envolveu um questionário enviado a todos os 159 médicos internos das especialidades de psiquiatra de adultos e de psiquiatria da infância e da adolescência em Portugal, tendo respondido 62 dos participantes (40,3%).
 
De acordo com os resultados, 43,5% dos inquiridos já pensaram que seria melhor se morressem e 32,6% já ponderaram cometer o suicídio. Foram ainda identificados 4,3% de psiquiatras que tentaram suicidar-se.
 
“Em Portugal, os trabalhos que têm sido desenvolvidos sobre a ideação suicida em internos de psiquiatria têm evidenciado potenciais fatores como causas do desejo de morte nesta população. Entre esses fatores encontram-se a insatisfação com o internato complementar, com as condições de trabalho”, refere no estudo.
 
O estudo acrescenta que “os internos de psiquiatria lidam com pacientes com sintomas depressivos e comportamento suicidário na sua prática clínica, o que pode constituir um fator de stress acrescido”.
 
João Gama Marques refere que esse pensamento suicida “pode ter acontecido ainda antes da entrada para o curso de medicina ou para a especialidade de psiquiatria. Não podemos estabelecer com segurança uma relação de causalidade”. 
 
“Não sabemos se a ideação suicida foi causa ou consequência da escolha da carreira médica e\ou psiquiátrica. No entanto, sabemos que 4,3% dos inquiridos tentaram, de facto, o suicídio, e que essa tentativa foi realizada (em todos os casos) antes da entrada para a especialidade de psiquiatria”, disse à agência Lusa o psiquiatra.
 
É curioso que “nenhum dos inquiridos tenha admitido uma tentativa suicida após a entrada para a especialidade de psiquiatria, de onde se poderá especular algum efeito protetor”, acrescentou João Gama Marques.
 
Questionado sobre os fatores específicos a que esta população está exposta, o médico esclareceu que alguns são “muito semelhantes aos que afetam os médicos internos de outras especialidades, nomeadamente excesso de carga horária, más condições de trabalho, insatisfação profissional, desilusão pessoal, que muitas vezes condicionam o aparecimento da chamada exaustão laboral (síndrome de burnout)”.
 
Relativamente ao impacto da carga laboral, o psiquiatra referiu que, além dos médicos, essa situação também acontece com enfermeiros. Os médicos internos estão particularmente vulneráveis, porque estando na base da pirâmide hierárquica, acabam por ter que assegurar uma série de tarefas clínicas: consultas, cirurgias, urgências ou enfermaria”. 
 
“Qualquer especialidade tem aspetos difíceis. Nunca é fácil ser-se médico. No fundo «deve ser duro», tanto para um pedopsiquiatra, como para um oncologista, um cirurgião cardiotorácico ou um médico de medicina geral e familiar. Todos eles lidam com «realidades duras», nomeadamente relacionadas com as mais variadas formas de sofrimento humano”.
 
Sobre eventuais formas de prevenção, o investigador disse que “o comportamento suicida em técnicos de saúde pode e deve ser prevenido, nomeadamente atacando os fatores de risco para a síndrome de burnout".
 
ALERT Life Sciences Computing, S.A.
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