Quando os vírus saltam espécies

Cientista português explica semelhanças entre doenças

19 maio 2003
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A pneumonia atípica parece ser causada por um vírus que saltou a barreira das espécies e se adaptou «bem» ao homem, resultado de uma coabitação excessiva com os animais na Ásia, segundo um especialista português.
 

 

João Pedro Simas, que desenvolve trabalhos na área da patogénese viral no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), explicou, em declarações à Agência Lusa, que a «promiscuidade entre animais e pessoas» naquele continente favorece este tipo de contágios.
 

 

«A capacidade de saltar espécies sempre aconteceu, mas hoje em dia é mais fácil isso acontecer, e o vírus se propagar largamente, devido à grande densidade populacional», disse o especialista, também professor de virologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
 

 

A comunidade científica acredita que terá sido assim que surgiu a pneumonia atípica, infecção cientificamente designada por Síndroma Respiratória Aguda (SRA), descoberta em Novembro do ano passado no Sul da China e já causou 623 mortos, com mais de 7.700 casos de infecção registados em cerca de 30 países.
 

 

Segundo Pedro Simas, este tipo de infecção viral emerge entre a população humana quando existe uma «recombinação ou evolução genética do próprio vírus que lhe permite infectar um maior número de pessoas, de forma mais violenta», ou quando se verifica uma «modificação de factores externos ao próprio vírus».
 

 

Exemplo do primeiro caso é o vírus da síndroma da imuno- deficiência adquirida, que os cientistas pensam ser resultado de um salto entre espécies - do macaco para o homem -, porque os primeiros registos de infecção surgiram em zonas geográficas onde o SIV (vírus semelhante ao HIV que afecta os macacos) era endémico.
 

 

Por seu lado, o ébola é apresentado como exemplo de um vírus que saltou as espécies por modificação de factores externos, acreditando-se que tenha surgido por «invasão de habitat», que expôs o homem a um vírus para o qual não tem qualquer tipo de imunidade.
 

 

A diferença é que, quando não há uma recombinação genética do próprio vírus dentro do novo hospedeiro, quando este não se adapta tão bem ao homem, a sua propagação é inexistente ou limitada, caso do ébola ou de algumas encefalites transmitidas por picadas de insecto, continuou.
 

 

Pelo contrário, os vírus que evoluem e procedem a esta adaptação, conseguem aumentar a sua virulência entre os seres humanos, caso do HIV e do coronavirus que está na origem da SRA.
 

 

João Pedro Simas alertou ainda para o facto de a recombinação genética de vírus provenientes de animais constituir um entrave ao desenvolvimento de medicamentos para esse tipo de infecções, quase sempre muito epidémicas.
 

 

O especialista lembrou ainda que este género de episódios epidémicos não é novo naquele continente, onde já se verificaram casos de gripe que passaram dos suínos e das galinhas para o homem.
 

 

Veja tudo na: Lusa
 

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