Quando nos esquecemos de nos lembrar: falhas na memória prospetiva

Artigo divulgado no “Current Directions in Psychological Science”

13 agosto 2012
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Um artigo da autoria de R. Key Dismukes, da NASA Ames Research Center, nos EUA, e publicado no “Current Directions in Psychological Science”, analisa a investigação levada a cabo na área da memória prospetiva e destaca as diferentes formas em que aspetos de tarefas quotidianas interagem com processos cognitivos normais, dando origem a falhas de memória que, por vezes, têm consequências desastrosas.
 

Uma equipa de cirurgia fecha uma incisão abdominal e dá por concluída uma operação difícil, mas bem-sucedida. Semanas mais tarde, o paciente dá entrada nas Urgências com dores abdominais. O raio x revela que um dos instrumentos cirúrgicos ficou esquecido dentro do paciente. Por que razão profissionais altamente qualificados esquecem-se de realizar uma simples tarefa que já executaram várias vezes no passado sem qualquer dificuldade? Estudos revelam que estes lapsos podem não estar relacionados com descuido ou falta de conhecimento, mas com falhas na memória prospetiva.
 

As falhas na memória prospetiva ocorrem normalmente quando temos a intenção de fazer algo mais tarde, embrenhamo-nos noutras tarefas e perdemos o foco daquilo que tínhamos inicialmente intenção de fazer. A memória prospetiva depende de vários processos cognitivos, tais como o planeamento, a atenção e a gestão de tarefas. Apesar de comuns no dia-a-dia, estes lapsos são, na maior parte das vezes, irritantes. Contudo, podem acarretar consequências trágicas. Todos os anos, por exemplo, morrem bebés esquecidos pelos pais dentro dos carros deixados ao sol durante o verão.
 

Muito daquilo que temos intenção de fazer no quotidiano, quer seja no trabalho ou em casa, envolve tarefas repetitivas. Assim sendo, no caso de tarefas habituais, as nossas intenções podem não ser explícitas. Não formulamos, por exemplo, uma intenção explícita de colocar a chave na ignição sempre que conduzimos um carro – a intenção encontra-se implícita na rotina habitual de conduzir.
 

Dismukes e outros colegas identificaram, em estudos anteriores, situações que podem conduzir a falhas de memória prospetiva. Interrupções a processos habituais, por exemplo, além de serem irritantes no dia-a-dia, podem conduzir a situações fatais em determinados contextos. Várias catástrofes aéreas ocorreram devido a interrupções enquanto o piloto realizava tarefas críticas pré-voo. Depois da interrupção, os pilotos passaram para a tarefa seguinte sem se darem conta de que a tarefa interrompida não tinha sido concluída.
 

Apesar de parecer que nos adaptamos bem a realizar várias tarefas em simultâneo, estudos demonstram que, quando surge um problema numa das tarefas, temos a tendência para dar atenção a essa tarefa específica e esquecermo-nos das restantes.
 

Para nos protegermos de falhas de memória prospetiva e das suas consequências potencialmente catastróficas, os profissionais da aviação e da medicina, por exemplo, passaram a adotar ferramentas específicas para apoiar a memória, tais como listas de verificação. Estudos revelam ainda que intenções de implementação (por exemplo, identificar quando e onde será realizada uma determinada intenção) pode ajudar a prevenir falhas semelhantes. Dismukes afirma que ter um plano concreto ajuda a melhorar duas a quatro vezes mais a memória prospetiva em tarefas como o exercício físico, adesão a medicação, autoexame da mama e trabalhos de casa.
 

Além das listas de verificação e intenções de implementação, Dismukes e outros investigadores apontam outras formas de ajudar a lembrar e executar determinadas tarefas:

•    Usar ferramentas externas de apoio à memória, tais como alarmes no calendário do telemóvel;
•    Evitar realizar várias tarefas em simultâneo quando uma das tarefas é importante;
•    Executar tarefas importantes no momento e não mais tarde;
•    Colocar avisos que se destaquem e em locais onde seja fácil vê-los;
•    Relacionar a tarefa-alvo com um hábito que já esteja estabelecido.
 

“Em vez de culpar os indivíduos por lapsos inadvertidos na memória prospetiva, as organizações podem melhorar a segurança através do apoio à colocação em prática destas medidas”, defende Dismukes. Este investigador sugere ainda que os cientistas devem combinar a investigação em laboratório com a observação das ações humanas no mundo real de forma a compreender melhor como funciona a memória prospetiva e desenvolver estratégias práticas para evitar falhas.
 

ALERT Life Sciences Computing, S.A.

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