Posição social pode predispor para a toxicodependência – revela estudo

Os símios dominantes são menos predispostos ao consumo de cocaína

24 janeiro 2002
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A posição social, o ser dominante ou subordinado, tem um papel vital na determinação da susceptibilidade para uso de drogas, disseram cientistas na terça-feira sobre um estudo com macacos que pode ajudar a entender vícios humanos.
 

 

Os investigadores da Universidade Wake Forest, em Winston-Salem (Carolina do Norte - EUA), fizeram um estudo que lhes permitiu verificar que, nas redes sociais existentes nos grupos de macacos, os que se encontram nas posições mais subordinadas do grupo são mais propensos ao consumo de cocaína.
 

 

Michael Nader e seus colaboradores constataram esse facto em condições laboratoriais e não nas naturais. Como explicam no artigo publicado na última edição da revista Nature Neuroscience, os processos bioquímicos que ocorrem no cérebro e que estão associados ao status social de cada indivíduo pode explicar este fenómeno.
 

 

Mudanças ambientais têm impacto profundo na química cerebral
 

 

Na maior parte dos símios que vivem em grupos com estruturação social hierarquizada, cada u«indivíduo ocupa uma posição social bem definida. De acordo com Nader e colaboradores, essa classificação social reflecte-se no aumento da produção de um neurotransmissor cerebral que está intimamente relacionado com o abuso de drogas: a dopamina.
 

 

A dopamina é uma substância que é libertada durante a transmissão normal de impulsos nervosos mas também está envolvida nas vias metabólicas cerebrais associadas ao processo de recompensa. Nader e colaboradores verificaram que os indivíduos que ocupam posições dominantes no grupo têm mais receptores celulares para a dopamina do que os que ocupam posições subordinadas.
 

 

Para este grupo de investigadores, este trabalho demonstrou que as mudanças ambientais podem ter um impacto profundo nos processos químicos cerebrais relacionados com a sensibilidade a uma substância específica capaz de causar dependência.
 

 

Para os especialistas, é provável que esta descoberta tenha algum paralelismo na espécie humana no que diz respeito à predisposição de cada indivíduo para a toxicodependência. Numa entrevista à agência Reuters, Nader fundamenta esta ideia afirmando dos animais que tomaram cocaína apenas alguns se tornaram dependentes, sendo isto uma evidência de que cada indivíduo tem uma tendência mais ou menos acentuada para a toxicodependência.
 

 

Quando um indivíduo toma cocaína, a produção de dopamina no cérebro aumenta e, portanto, a quantidade de desta substância nas sinapses (zonas de contacto entre as células nervosas) também aumenta. os investigadores explicam que é o aumento dos níveis de dopamina que provoca a «viagem» do dependente.
 

 

O estudo
 

 

Os investigadores estudaram 20 macacos do sexo masculino que moraram sozinhos durante ano e meio. Durante este período de tempo, os cientistas registaram a actividade hormonal e o comportamento dos indivíduos. A actividade química do cérebro também foi estudada por meio de sofisticadas técnicas de imagem.
 

 

Em seguida houve uma mudança de ambiente: os animais foram divididos em grupos de quatro e passaram de uma vida isolada para uma vida em grupo. A interacção social prolongou-se por três meses. Os indivíduos dominantes destacaram-se em todos os grupos e a hierarquia foi estabelecia logo desde o início. Os indivíduos dominantes foram aqueles que se mostraram mais agressivos e menos submissos do que os outros.
 

 

Após os primeiros três meses de interacção social, os cientistas introduziram a cocaína no ambiente dos símios, através de um sistema que permitia que fossem os próprios macacos a administrar a si próprios as doses de cocaína de que necessitavam. Este método permitiu constatar que os macacos dominantes recorriam muito menos à cocaína, demonstrando que estavam menos propensos à dependência do que os seus subordinados.
 

 

As imagens cerebrais obtidas por ressonância magnética revelaram que nos animais dominantes, as vias metabólicas associadas à dopamina mudaram após a imposição do novo ambiente: o número de receptores celulares para a dopamina aumentou nestes indivíduos.
 

 

Uma vez que estas alterações ocorreram durante após o início de convívio social e não foram observadas enquanto os macacos dominantes viviam sozinhos nem nos subordinados depois de começarem a viver em grupo, os cientistas pensam que estas mudanças no processo químico cerebral resultam do facto destes indivíduos terem-se mostrado os mais dominantes dos grupos.
 

 

Para Nader este trabalho tem uma aplicabilidade positiva para os seres humanos. Neste caso, demonstrou-se que o enriquecimento ambiental pode induzir alterações rápidas no cérebro de alguns indivíduos que os protege do abuso de drogas potencialmente geradoras de dependência física.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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