Por que é que uma criança é problemática?

A resposta pode ser: tem níveis elevados de chumbo no sangue.

23 setembro 2001
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Níveis plasmáticos elevados de chumbo no sangue podem ser a explicação para os problemas de desenvolvimento e de comportamento em algumas crianças. Esta é a conclusão de um estudo realizado por um grupo de investigadores do South and West Devon Health Authority e publicado no periódico científico Archives of Disease in Childhood.
 

 

O chumbo é um metal pesado conhecido por provocar danos no sistema nervoso que, na maior parte dos casos, podem ser tratados. Este elemento entra no organismo através da alimentação ou por inalação de gases provenientes de certas fontes de poluição. As crianças absorvem maiores quantidades de chumbo do que os adultos (cerca de três vezes mais) porque elas mascam diversos tipos de objectos e lambem os dedos depois de mexer nas mais variadas coisas.
 

 

A equipa, coordenada por Gill Lewendon, defende que estas descobertas podem significar que qualquer criança que seja alvo de preocupação quer pelo seu comportamento quer pelo seu desenvolvimento, deverá ser sujeita a análises laboratoriais para pesquisa dos níveis sanguíneos de chumbo.
 

 

Níveis tóxicos de chumbo
 

 

As conclusões deste trabalho resultam do estudo de análises ao sangue a 69 crianças apontadas pelo Child Development Centre em South West England. As crianças escolhidas apresentavam problemas comportamentais, como a hiperactividade, ou atrasos no desenvolvimento na linguagem escrita e oral. A hiperactividade e os atrasos na linguagem são, muitas vezes, responsáveis por dificuldades de aprendizagem mais ou menos graves.
 

 

O grupo de controlo deste estudo era constituído por amostras de sangue provenientes de 136 crianças que deram entrada em hospitais distritais para cirurgias simples de rotina. Neste estudo não foram consideradas as diferenças de idade, sexo ou socioeconómicas.
 

 

As análises mostraram que as crianças com problemas de desenvolvimento e/ou de comportamento apresentavam níveis mais de chumbo mais elevados do que as outras crianças; algumas (cerca de 12%) tinham níveis superiores aos tóxicos. No grupo controlo apenas 0,5% das crianças apresentaram níveis de chumbo superiores aos tóxicos.
 

 

Susceptibilidade
 

 

No relato desta investigação, G. Lewendon e seus colaboradores sustentam que «... as medidas para reduzir as quantidades plasmáticas de chumbo nas crianças são eficazes e não dispendiosas, pensamos que, do ponto de vista clínico, se deverá implementar na rotina clínica a análise deste metal pesado para despiste de futuros problemas de desenvolvimento e/ou de comportamento.»
 

 

O editor do Archives of Disease in Childhood, Harvey Marcovitch, salienta que investigações anteriores, levadas a cabo nos Estados Unidos, já permitiram estabelecer uma relação entre níveis elevados de chumbo com quocientes de inteligência baixos, mas este trabalho apresenta pela primeira vez uma relação directa entre as quantidades plasmáticas deste metal pesado e problemas de comportamento na infância. Também já foram relatadas relações entre níveis elevados de chumbo e a criminalidade (Aspectos genéticos e bioquímicos da criminalidade).
 

 

Em entrevista à CNN.com, Harvey Marcovitch defende que a próxima etapa nas investigações neste campo será determinar se o chumbo é, em si, a causa directa dos problemas comportamentais ou se é indutor dos mecanismos biológicos que os desencadeiam. Este editor termina os seus comentários a este trabalho afirmando que «... antes de mais, precisamos de determinar as fontes a partir das quais as crianças absorvem o chumbo.»
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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