Pediatria: Micção nocturna é um problema físico e não psicológico

A actividade cerebral é diferente nas crianças com este problema

31 outubro 2001
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As conclusões de um trabalho de investigação recente fornecem evidências de que a micção nocturna da criança («fazer xixi na cama») é um problema físico e não psicológico.
 

 

Um grupo de neurologistas da Universidade de Mersin (Turquia) estudaram a actividade eléctrica cerebral em criança e constataram que as crianças que urinavam na cama apresentavam sinais de maturação cerebral retardada.
 

 

Enurese nocturna
 

 

A enurese nocturna, assim se designa este problema pediátrico, é a queixa pediátrica mais comum dos pais e pode ser definida como a micção involuntária e frequente (pelo menos de uma vez por mês) numa idade em que já deveria existir o controlo do esfíncter. A enurese só deve ser considerada se esse controlo não se verificar nas raparigas a partir dos cinco anos e nos rapazes a partir dos seis.
 

 

Todos os pais sabem que qualquer criança faz xixi na cama de vez em quando e, normalmente, isso deixa de acontecer naturalmente. No entanto, mais de 3% das crianças de doze anos urinam na cama à noite. Este problema também afecta cerca de 0,5% dos adultos.
 

 

Muitas pessoas ainda consideram que a enurese nocturna é um problema psicológico mas a Olgu Hallioglu e os seus colaboradores em Mersin, detectaram algumas diferenças entre a actividade cerebral de crianças que urinam na cama e a actividade cerebral de crianças em que isso já não acontece.
 

 

Mielina e a actividade das ondas cerebrais
 

 

Os investigadores estudou dois grupos de crianças: um grupo de crianças que tinham episódios de enurese nocturna e outro de crianças em que isso já não acontecia. Todas as crianças tinham idades compreendidas entre os 6 e os 14 anos.
 

 

A actividade cerebral foi medida por intermédio de um electroencefalograma (EEG) – trata-se de um exame em que se aplicam eléctrodos no couro cabeludo e se registam os ritmos eléctricos cerebrais. Neste estudo os investigadores realizaram electroencefalogramas em repouso para medir o grau de mielinização das fibras nervosas e mediram as ondas cerebrais delta e alfa.
 

 

A mielina é a substância que reveste as fibras nervosas. Este revestimento favorece a transmissão do impulso nervoso ao longo de uma fibra impedindo, ao mesmo tempo, a sua «dispersão» paralela para outras fibras vizinhas.
 

 

Como funciona o cérebro nestas crianças
 

 

Nas crianças com menos de dois anos, a actividade das ondas delta durante o sono é maior e diminui à medida que a criança cresce. Com as ondas alfa acontece o inverso: a actividade durante o sono é menor nas crianças com menos de dois anos e aumenta à medida que a criança cresce. O comportamento das ondas alfa e delta reflecte o grau de mielinização das fibras nervosas, que é mais baixo à nascença aumenta a um ritmo bastante elevado nos primeiros anos de vida.
 

 

Neste estudo, os investigadores constataram que as crianças que urinavam na cama tinham sonos em que as ondas delta tinham actividade elevada e as ondas alfa tinham actividade baixa.
 

 

De acordo com o relato deste trabalho publicado na edição de Outubro do Journal of Child Neurology, Hallioglu e seus colaboradores consideram que estas diferenças na actividade das ondas delta e alfa sugerem que a maturação cerebral é retardada nas crianças que têm enurese nocturna e, com bases nestes resultados, eles recomendam que se realize o electroencefalograma em repouso para diagnosticar com maior eficácia este problema.
 

 

Esta descoberta é um contributo valioso no tratamento deste problema pediátrico que, em muitos lares, origina diariamente ansiedade em pais e filhos. Os autores desta investigação pensam que se a mielinização for incentivada por meio de medicamentos nestas crianças, o problema poderá ser ultrapassado mais facilmente. Para isso, eles sugerem que se investigue mais este problema à luz destes novos conhecimentos.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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