Para aprender não é preciso estar atento

Estudo revela aprendizagem inadvertida

29 outubro 2001
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Os estudantes que estão muito concentrados na tentativa de aprender mais qualquer coisa de novo nas suas aulas podem ficar muito surpreendidos ao saber que grande parte do conhecimento da nova matéria já foi absorvido. Esta é uma das conclusões de um estudo recente que mostra que é possível aprender sem prestar muita atenção.
 

 

Quando uma pessoa, por exemplo, anda pela rua sem prestar atenção aos carros que passam ao seu lado, o seu sentido de direcção e espaço aumenta, afirmou à agência Reuters o coordenador deste estudo, o médico japonês Takeo Watanabe, da Universidade de Boston, em Massachussetts (EUA). Neste caso, a sensibilidade aumentada -- ou aprendizagem inadvertida -- é importante para a ajudar a afastar-se de um carro que possa aproximar-se.
 

 

Watanabe e seus colaboradores realizaram uma série de testes destinados a analisarem se a atenção ou a concentração num determinado assunto são necessárias para que a aprendizagem se realize. Os resultados deste trabalhos foram publicados na edição de Outubro da revista Nature.
 

 

Investigando o processo de aprendizagem
 

 

Os investigadores criaram um teste-base em que os participantes deveriam identificar duas letras de cor cinzento-claro que surgiam no meio de uma sucessão rápida de letras pretas. Toda a sucessão de letras foi apresentada contra um fundo granulado com pontos, que deveria ser ignorado. A maioria dos pontos apresentava movimentos aleatórios.
 

 

No primeiro teste, o fundo granulado tinha, entre os pontos com movimentos aleatórios, cinco por cento de pontos de movimentos coerentes: isto é, pontos com movimentos de direcção bem definida e determinada. De acordo com os cientistas, este número de pontos coerentes era suficientemente reduzido para que os voluntários que participaram neste trabalho não tivessem percepção deles – vamos designa-los por pontos «invisíveis».
 

 

Num segundo teste, os investigadores aumentaram o número de pontos com movimento coerente no fundo granulado para dez por cento. Segundo o relato publicado na revista, esta percentagem de pontos já é suficientemente elevada para que os participantes se apercebessem dos movimentos coerentes – vamos chama-los de pontos «vísiveis». Assim, os voluntários, neste teste, tiveram de identificar não só as letras cinzentas mas também os pontos coerentes e a direcção do seu movimento.
 

 

Após a análise dos resultados, a equipa coordenada por Watanabe constatou que as pessoas que, nos testes de identificação das letras cinzentas, já tinham sido expostas aos pontos «invisíveis» que se movimentavam numa determinada direcção, detectaram mais rapidamente os pontos «vísiveis» que se movimentavam na mesma direcção.
 

 

De acordo com Watanabe e seus colaboradores, esta descoberta mostra que o estímulo não tem de ser percepcionado pelo indivíduo no seu processo de aprendizagem.
 

 

Um novo tipo de aprendizagem
 

 

No fundo, o cérebro humano é capaz de se adaptar rápida e continuamente ao ambiente envolvente, tornando-se progressivamente mais sensível aos estímulos mais frequentemente encontrados e importantes.
 

 

De acordo com os investigadores, trata-se de uma aprendizagem adaptativa, isto é, a sensibilidade à assimilação de novos estímulos aumenta à medida que aumenta a sua frequência.
 

 

Os autores do trabalho chamam a este processo aprendizagem inadvertida, que ocorre sem que o indivíduo preste atenção, sem que tenha percepção dos estímulos de aprendizagem e sem que tenha de desempenhar qualquer tarefa específica para assimilar os conteúdos específicos da matéria.
 

 

Assim, se você decidir aprender uma língua estrangeira, por exemplo, pode fazê-lo simplesmente se ouvir em volume baixo as aulas gravadas enquanto vai de manhã para o emprego. Não precisa prestar muita atenção àquilo que ouve para que a sua pronúncia melhore de dia para dia.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI - Médicos Na Internet

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