Os riscos da xenotransplantação

Especialistas alertam para os perigos

07 janeiro 2002
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À medida que a ciência aproxima a possibilidade de utilizar órgãos de porcos para transplantes em humanos, peritos alertam para os perigos desta técnica poder transferir para o homem vírus mortais dos suínos.
 

 

Duas equipas de investigação anunciaram nos últimos dias terem conseguido clonar leitões aos quais falta um dos dois genes que desencadeiam a rejeição pelo sistema imunitário do homem dos órgãos transplantados de porcos.
 

 

O próximo passo, anunciaram os cientistas, é eliminar ambas as cópias deste gene através da clonagem ou de técnicas de reprodução natural.
 

 

Num mundo em que mais de 5.700 pessoas morrem anualmente por falta de órgãos para transplantes, muitos investigadores vêem os porcos como uma fonte quase inesgotável de corações, rins, fígados ou pulmões.
 

 

E os vírus dos animais...
 

 

Mas alguns especialistas alertam que todo o campo da xenotransplantação (transplantes de órgãos de uma espécie para outra) acarreta muitos riscos para os indivíduos transplantados e até, talvez, para os outros seres humanos.
 

 

Os porcos são conhecidos por conterem o que se chama retrovírus endógenos porcinos (PERV), vírus que evoluíram com os suínos durante milhões de anos e que fazem agora parte dos genes destes animais.
 

 

Um desastre?
 

Os vírus não afectam os porcos mas não se sabe o que pode acontecer se os seus órgãos forem transplantados em humanos. "Esta é uma receita para o desastre", sublinhou Alix Fano, líder da Campanha por uma Transplantação Responsável, uma organização de cientistas e médicos que se opõe à xenotransplantação.
 

 

Outros peritos concordam que os vírus dos suínos são um problema grave mas acreditam que a ciência poderá encontrar uma solução para o contornar. "A questão ética é saber se há um risco para a população em geral derivado de um procedimento que beneficia apenas um indivíduo", sublinhou George Agich, director da unidade de bioética na Clínica de Cleveland.
 

 

 

Potenciais assassinos
 

 

Até a ciência dispor de meios para determinar se esse risco é razoável, prosseguiu, é necessária uma "cautela extrema".
 

 

Alguns estudos em que humanos foram expostos a células de porcos sugerem que os PERV não infectam as células do homem.
 

 

No entanto, os mais críticos alertam para outros exemplos na natureza que demonstram que retrovírus inofensivos numa espécie podem tornar-se assassinos em humanos.
 

 

Exemplo da Sida
 

 

O exemplo mais claro, segundo Jonathan Allan, da Southwest Foundation for Biomedical Research, é o vírus da imunodeficiência adquirida (VIH), que causa a Sida.
 

 

Alguns cientistas acreditam que este vírus viveu em macacos de forma inofensiva, só se tornando mortal quando transpôs a barreira da espécie humana.
 

 

Assim, Allan defende investigação intensiva antes de se pensar em qualquer hipótese de xenotransplantação.
 

 

Antes de avançar, sublinhou, os cientistas deverão ser capazes de responder com segurança se os vírus dos porcos podem infectar os transplantados, se podem ser transmitidos a outras pessoas e mesmo se poderão passar para a geração seguinte.
 

 

Bombas-relógio
 

 

Allan explicou que esta pesquisa é ainda mais complexa porque alguns destes vírus "hibernam" no corpo durante anos antes de desencadearem a infecção. "São como bombas-relógio que podem ou não explodir", disse.
 

 

 

Randall Prather, investigador da Universidade de Missouri e membro de uma das equipas que clonou os porcos geneticamente modificados, diz que estas questões só se poderão pôr se se conseguirem desenvolver animais cujos órgãos não sejam rejeitados pelo sistema imunitário dos humanos.
 

 

Mesmo que as questões científicas sejam resolvidas, muitos peritos consideram que só a ideia de transplantar órgãos de porcos em humanos é simplesmente repugnante.
 

 

Fonte: Lusa
 

 

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