Os efeitos desconhecidos da ecografia
12 dezembro 2001
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Hoje em dia todas as grávidas fazem os exames de rotina para que a gestação seja monitorizada e, na eventualidade de existir algum problema ele seja imediatamente detectado e resolvido. Os exames realizados ao longo de uma gestação inclui análises ao sangue e à urina da gestante, uma amniocentese (análise ao líquido amniótico) também pode ser requerida pelo médico mas os exames por ultrassonografia – ecografia – fazem parte da rotina de uma gestação.
 

 

Em Portugal, a Direcção Geral da Saúde considera, de acordo com os conhecimentos científicos actuais, ser três o número máximo de ecografias a realizar numa gravidez de baixo risco, uma em cada trimestre da gestação. Uma gravidez de risco poderá requerer mais exames por ultrassonografia.
 

 

Apesar da aplicação deste exame ser recomendada pela maior parte dos obstetras, ainda se desconhecem os efeitos dos ultrassons no desenvolvimento fetal. Nesse sentido, um grupo de investigadores suecos realizou um trabalho sobre os efeitos secundários da ecografia no desenvolvimento fetal.
 

 

De acordo com a coordenadora deste estudo, Helle Kieler do Department of Women’s and Children’s, Obstetrics and Gynecology da Uppsala University (Sweden) muitas ecografias são realizadas de «forma abusiva», sendo muitas vezes «completamente desnecessárias.»
 

 

Sexo masculino é o mais afectado
 

 

Kieler e seus colaboradores estudaram um grupo de homens suecos nascidos entre 1973 e 1978. A amostra era constituída por aproximadamente 7000 homens que foram expostos aos ultrassons durante o seu desenvolvimento embrionário e cerca de 172000 que não sofreram essa exposição.
 

 

Os resultados, publicados no jornal científico Epidemiology sugerem que homens sem qualquer predisposição genética para serem canhotos tornaram-se canhotos durante o seu crescimento, devido ao facto das suas mães terem sido submetidas a ecografias durante a gestação.
 

 

Segundo os autores deste trabalho, esse facto poderá resultar da interferência específica dos ultrassons ocorrida durante o desenvolvimento do cérebro durante a vida fetal. «É do conhecimento de todos os neuropsiquiatras que as pessoas dextras podem tornar-se canhotas se sofrerem alguma lesão cerebral», explicou Kieler em declarações à NewScientist. E esta alteração da lateralidade dos indivíduos pode ser comparada, de acordo com os autores deste trabalho, a estas situações provocadas por lesões cerebrais.
 

 

É significativo verificar que a maior percentagem de homens canhotos surge entre os nascidos após 1976. Foi precisamente a partir desta data que os exames por ecografia se vulgarizaram na Suécia, quando as mulheres suecas passaram a fazer duas ecografias ao longo da gravidez.
 

 

E as mulheres também são afectadas pela exposição aos ultrassons?»
 

 

Numa outra investigação de 1999, também coordenado pela mesma cientista, verificou-se que a característica de lateralidade das mulheres não é influenciada pelos ultrassons. Ao contrário do que o presente trabalho mostra relativamente aos homens.
 

 

Essa diferença poderá dever-se ao modo como ocorre o desenvolvimento do cérebro em cada sexo. No sexo masculino, o desenvolvimento cerebral, durante a vida fetal, é mais prolongado do que nas mulheres o que, segundo Kieler, pode constituir uma «janela que permanece aberta mais tempo» às influências ambientais externas.
 

 

«Bolhas vibratórias»
 

 

Apesar destes resultados, esta investigação não explica a forma como os ultrassons das ecografias influenciam o desenvolvimento do cérebro na determinação do facto do indivíduo vir a ser dextro ou canhoto.
 

 

Kieler e seus colaboradores suspeitam que o cérebro fetal poderá sofrer as influências dum processo designado por cavitação. A cavitação corresponde à vibração, provocada pelas ondas ultrassónicas, de pequenas bolhas dos fluídos corporais.
 

 

«Nas fases iniciais do desenvolvimento do cérebro, os neurónios migram do centro para a periferia e essa migração poderá ser influenciada pela cavitação», explicou Kieler à New Scientist.
 

 

Segundo esta investigadora, ainda existe um enorme vazio no conhecimento actual sobre a influência dos ultrassons no desenvolvimento embrionário e fetal mas «se este tipo de ondas exercem efeitos deste tipo, então teremos de os levar a sério», adverte.
 

 

Ecografia – um exame imprescindível no diagnóstico pré-natal
 

 

No entanto as ecografias são exames imprescindíveis no diagnóstico pré-natal pelo que é precipitado que as grávidas, baseadas neste estudo, cancelem as ecografias marcadas e se recusem a realizá-las.
 

 

Os próprios autores realçam que não encontraram qualquer razão para que a lateralidade do indivíduo seja afectada pelos ultrassons. Trata-se apenas de um estudo em que se encontrou uma relação estatística entre dois factores: ser, ou não, canhoto e ter sido exposto a ultrassons durante o desenvolvimento embrionário. Assim, serão necessários estudos mais específicos que esclareçam essa relação.
 

 

Para já resta-nos lembrar a importância da ecografia no diagnóstico pré-natal, sendo uma técnica não invasiva, contrariamente à amniocentese, que contribui em larga escala para a redução da mortalidade e morbilidade por anomalias genéticas, segunda causa de morte perinatal e infantil no nosso país.
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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