O poder das anfetaminas no cérebro

Cientistas dividem-se sobre a questão da toxicidade

03 dezembro 2002
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Investigadores procuram esclarecer se a toxicidade das anfetaminas tem consequências irreversíveis no cérebro, ao mesmo tempo que a industria farmacêutica admite comercializar algumas destas substâncias como inibidoras do apetite.
 

 

"A nível científico ainda não existe consenso sobre o melhor método de avaliar a neurotoxicidade de alguns compostos derivados das anfetaminas", disse hoje, em declarações à Agência Lusa, Edgar da Cruz e Silva, director do Centro de Biologia Celular da Universidade de Aveiro (UA).
 

 

"O que faz com que a opinião dos especialistas sobre os efeitos destas substâncias no cérebro se divida", continuou, acrescentando que existe um grande interesse da indústria farmacêutica para que estes compostos, passíveis de serem utilizados em "comprimidos de dieta", sejam considerados não tóxicos.
 

 

As anfetaminas, que têm no ecstazy um dos seus derivados mais famosos, agem de forma semelhante a outras drogas, actuando ao nível da comunicação entre os neurónios através dos neurotransmissores (componentes químicos segregados pelos neurónios, que tanto podem inibir com estimular o fluxo de um impulso entre as células nervosas).
 

 

"Os neurotransmissores podem ser excitatórios ou inibitórios. No caso do ecstazy, este actua ao nível da serotonina, um dos principais neurotransmissores do grupo excitatório", disse o especialista português.
 

 

Com efeito, estudos baseados em técnicas de imagiologia cerebral têm demonstrado que o ecstasy afecta os circuitos serotonérgicos cerebrais, isto é, usam o neurotransmissor serotonina para comunicar entre neurónios.
 

Os sistemas da serotonina estão relacionados com o controlo da agressividade, actividade sexual, sensibilidade à dor, humor, depressão, além de outros aspectos comportamentais.
 

 

Acresce que esta substância química, também libertada no cérebro depois de se comer um chocolate, pode funcionar como inibidora do apetite, o que atrai o interesse da indústria farmacêutica por este tipo de compostos, vistos como uma possível forma de alimentar o campo dos medicamentos para emagrecer.
 

 

Segundo Edgar da Cruz e Silva, continua por esclarecer até que ponto o ecstazy e outras anfetaminas são neurotóxicas.
 

"Uns dizem que os seus efeitos no cérebro são tóxicos por si só. Outros acreditam que não o são, já que as alterações verificadas são reversíveis", indicou.
 

 

O assunto, que vai precisar de muita investigação científica antes de se poder falar em conclusões, estará em discussão na Universidade de Aveiro, a 18 de Dezembro, numa conferência subordinada ao tema "Ecstazy e Danos Cerebrais: Factos e Mitos".
 

 

J.P. OCallaghan, perito norte-americano em neurotoxicologia dos Centros para o Controlo e Protecção da Doença, e membro da Comissão Internacional de acompanhamento científico da UA, é o conferencista convidado, numa palestra com entrada gratuita dirigida sobretudo a estudantes.
 

 

O investigador desenvolveu um método quantitativo de avaliação de neurotoxicidade baseado na detecção da proteína GFAP (glial fibrillary acidic protein), cuja expressão aumenta sempre que ocorrem danos nos neurónios que levam à sua morte.
 

 

OCallaghan tem manifestado publicamente algumas dúvidas sobre a interpretação correcta dos resultados de algumas experiências que supostamente apontam para a neurotoxicidade de substâncias como o ecstasy.
 

"Ele não diz que o ecstasy é seguro, mas defende a necessidade de mais estudos, com todos os cuidados possíveis, de modo a evitar interpretações erradas dos resultados da investigação", comentou Cruz e Silva.
 

 

Fonte: Lusa
 

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