O diagnóstico de demência depende do critério usado?

Estudo português apresenta resultados

03 dezembro 2002
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Num estudo efectuado no Centro de Estudos Egas Moniz da Faculdade de Medicina de Lisboa, a investigadora Manuela Guerreiro analisa os dois critérios mais usados internacionalmente em Medicina para aferir em que medida adoptar um critério e não outro é determinante para diagnosticar demência num paciente.
 

 

Os dois critérios mais utilizados são o da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o da Associação Americana de Psiquiatria (APA, na sigla original). Esta investigação com quase novecentos doentes revelou que a avaliação
 

neuropsicológica com o primeiro critério classifica como dementes 64% dos pacientes, mas já com o segundo critério, essa classificação ascende aos 83%.
 

 

A concordância de diagnóstico com os dois critérios - isto é, pacientes classificados do mesmo modo nos dois critérios - verifica-se apenas em 62% dos pacientes. Esta diferença na realização de diagnósticos tem implicações
 

significativas, porque se por um lado pode levar à imputação de demência a indivíduos que não estão doentes, por outro lado também implica terapêuticas
 

diferentes.
 

 

Assim, em 62 % dos casos houve o mesmo diagnóstico; sendo que em 16% houve concordância quanto à ausência de demência e nos restantes 46% dos casos houve concordância quanto à presença de demência. Isto significa que 20% dos casos podem ser classificados como “dementes” num critério e como “não dementes” noutro critério.
 

 

“Apesar das várias tentativas para uniformizar o conceito geral de demência, e sendo uma realidade que, actualmente, existe muito mais consenso do que há uns anos atrás, continuam a verificar-se discrepâncias evidentes entre os critérios de diagnóstico mais utilizados, o DSM-IV (APA, 1994) e a ICD-10 (OMS, 1992)”, diz a investigadora.
 

 

Critério mais exigente
 

 

O critério da OMS é mais exigente e específico do que o norte-americano da APA, que é mais sensível, originando um valor mais alto de falsos positivos ou seja, indivíduos que não estão doentes mas que são classificados como dementes.
 

 

Esta questão tem também implicações no domínio da investigação médica, ainda que a opção por um ou outro dos critérios dependa dos objectivos dos estudos e
 

da ponderação do risco em se incluir mais falsos positivos ou mais falsos negativos. No entanto, deverá ter-se sempre presente que estes dois critérios são instrumentos que, mesmo quando utilizados numa mesma população, originam
 

resultados com diferenças importantes.
 

 

A demência, segundo a OMS é uma evidência de declínio, em simultâneo, da memória e do pensamento (capacidade de raciocínio), suficientemente marcada para interferir nas actividades da vida diária, tendo, pelo menos, seis meses
 

de evolução e podendo ainda coexistir alteração, nas seguintes funções: linguagem, cálculo, julgamento, praxias, gnosias ou personalidade. Na definição da APA, a demência é a perda das capacidades intelectuais, de gravidade
 

suficiente para interferir com o funcionamento social e profissional, sendo necessária a presença de defeito de memória e de, pelo menos, outra função cognitiva.
 

 

MNI-Médicos Na Internet
 

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