O ADN da peste

Decifrado genoma do bacilo da peste

03 outubro 2001
  |  Partilhar:

Chama-se Yersinia pestis e foi o responsável da maior pandemia que dizimou milhões de pessoas durante a Idade Média. O genoma do bacilo da peste foi agora decifrado por uma equipa de cientistas britânica.
 

 

A sequência do genoma, publicada hoje na revista britânica Nature, foi traduzida pela equipa de Julian Parkhill, do Instituto Sanger de Cambridge, no Reino Unido e vem agora acalmar os ânimos de quem acredita no regresso desta epidemia lançada num ataque biológico terrorista.
 

 

A estrutura da bactéria demonstra a sua evolução a partir de um micróbio intestinal relativamente benigno, o Yersinia pseudotuberculosis, segundo os cientistas. A bactéria que provoca a peste, Yersinia Pestis, é um organismo dinâmico, que se adapta e passa por mutações rapidamente.
 

 

Durante sua evolução, a bactéria conseguiu sobreviver no sangue, e não apenas no intestino, abrangendo genes de vírus e bactérias. Enquanto isso, foram desactivados 149 genes que tinham deixado de ser úteis para sua sobrevivência.
 

 

O actual micróbio evoluiu de uma versão anterior, e muito menos nociva, que existia há milhares de anos e foi então baptizada de Y. Pseudotuberculosis.
 

 

Num curto espaço de tempo, em termos evolucionários, a Y. Pestins adquiriu a capacidade de atacar mamíferos usando moscas. Mas aprendeu mais. A viver, especialmente, no tecido sanguíneo, em vez de exclusivamente no intestino. A evolução também levou a bactéria a provocar os temidos efeitos à saúde humana - inchaços, tosse e hemorragias.
 

 

Por um espirro
 

 

Esta investigação teve por base a análise de amostras do micróbio recolhidas de um veterinário que morreu em 1992, depois de ter sido infectado por um espirro de um gato.
 

 

Segundo os cientistas, os genes específicos da bactéria fazem com que tenha habilidades especiais. Algumas delas, por exemplo, levam-na a produzir toxinas que possibilitam a sua sobrevivência nas moscas.
 

 

Os cientistas também descobriram que a bactéria que causa a peste bubónica tem uma estrutura semelhante à que causa a hanseaníase.
 

 

Outro facto confirmado nos estudos é que Y. Pestis continua a sua evolução, adaptando-se, até chegar a uma fase em que não representará nenhum perigo para a célula hospedeira.
 

 

Apesar disso, os cientistas Stewart Cole e Carmen Buchrieser, do Intituto Pasteur de Paris, afirmaram que, embora a peste tenda a desaparecer do planeta, o processo deve ainda demorar algum tempo.
 

 

Segundo os cientistas, a informação relativa ao código genético da bactéria deve ser usada para evitar que a peste não ressurja como uma ameaça e seja utilizada como arma numa eventual guerra bacteriológica.
 

 

Da peste negra à peste bubónica
 

 

A peste negra causou três ondas de pandemias. Mais de 200 milhões de pessoas morreram. Só no século XIV, matou um terço da população da Europa. Mas, ao contrário do que se possa pensar, a doença não desapareceu completamente do planeta e causa entre 100 a 200 mortes anuais em média.
 

 

Ligada a condições de vida onde reina a pobreza e falta de higiene, a peste é uma zoonose – doença que transmissível de outros animais vertebrados ao homem e vice-versa, sob condições naturais - que se transmite do rato ao homem através da picada da pulga.
 

 

Os sintomas da peste bubónica são febre alta e inflamação dos gânglios linfáticos na região da picada. Pode evoluir para uma septicemia - infecção generalizada no sangue -, que conduz à morte em menos de 36 horas. Quando a bactéria alcança os pulmões, transforma-se em peste pulmonar, letal em três dias se não for tratada de forma adequada.
 

A última vez que a peste bubónica provocou mortes em massa foi em 1994, quando houve um surto em Surat, na Índia.
 

 

Paula Pedro Martins
 

 

MNI - Médicos Na Internet
 

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.