«Nuvem negra» vinda da Ásia ameaça todo o planeta

Problemas respiratórios é apenas uma das muitas consequências catastróficas

12 agosto 2002
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A ameaça vem do céu em forma de nuvem negra e pode matar milhões de pessoas no sul da Ásia. Mas a situação é ainda muito mais grave. Cientistas que realizam estudos para a Organização das Nações Unidas (ONU) asseguram que a poluição atmosférica no sudeste asiático representa uma ameaça global.
 

 

No maior estudo já feito sobre o fenómeno, promovido pelas Nações Unidas, 200 cientistas alertam para o facto de que a nuvem, cujo tamanho é estimado em três quilómetros, é responsável por centenas de milhares de mortes por ano, causadas por doenças respiratórias.
 

 

Este relatório preliminar da ONU foi divulgado três semanas antes da reunião sobre a temática, que terá lugar na cidade sul-africana de Johannesburgo, a partir de 26 de Agosto.
 

 

Mudanças no clima
 

 

Ao reduzir a luz do Sol que atinge o solo em 10 a 15 por cento, a névoa acabou por alterar o clima da região, arrefecendo a terra, ao mesmo tempo em que aquece a atmosfera.
 

 

A nuvem castanha já domina todo o subcontinente indiano – do Sri Lanka ao Afeganistão – e é a causa do clima inconstante, que tem provocado inundações no Bangladesh, Nepal e nordeste da Índia, mas que levou a seca ao noroeste indiano e ao Paquistão.
 

 

Para Klaus Toepfer, director do Programa de Meio Ambiente da ONU, este fenómeno pode ter implicações globais, isto porque uma nuvem de poluição como esta pode viajar à volta do planeta em apenas uma semana.
 

 

A equipa que elaborou o relatório sobre a nuvem negra asiática para o Programa das Nações Unidas para o Ambiente assegura que este problema não diz apenas respeito à Ásia. A nuvem de partículas de poluentes pode dar a volta ao mundo numa semana.
 

 

Embora outros continentes também sejam atingidos pela poluição, como a América e a Europa, os cientistas surpreenderam-se com a capacidade de extensão da nuvem negra, bem como com a quantidade de carbono negro que ela comporta, segundo A. P. Mitra, do Laboratório Nacional de Física da Índia.
 

 

Composição
 

 

Esta estranha e perigosa nuvem é composta por uma mistura de aerossóis, cinzas, fuligem e outras partículas, e seu alcance vai muito além da região estudada no subcontinente indiano, atingindo já o leste e o sudeste da Ásia.
 

 

Se antes os cientistas pensavam que somente os gases-estufa, mais leves, como o dióxido de carbono, podiam viajar através da Terra, agora sabem que não: as nuvens de aerossóis também podem fazer o mesmo.
 

 

Segundo Toepfer, esta núvem negra é o resultado dos múltiplos incêndios, da queima de resíduos agrícolas, de aumentos acentuados na queima de combustíveis fósseis por automóveis, indústrias e fábricas e também do uso inadequado dos fogões das próprias casas.
 

 

Como consequência das mudanças de temperatura, esta nuvem está a desorientar os fenómenos naturais. Para os cientistas, as mudanças estão à vista, por exemplo, na diminuição e aumento do volume das chuvas que no Inverno acompanham as monções, o vento típico do sul da Ásia.
 

 

Segundo afirmaram às agências internacionais, as chuvas estariam a diminuir no noroeste do continente, enquanto aumentam mais a leste.
 

 

Segundo estimativas, esta névoa negra vai reduzir de 20 a 40 por cento a chuva e a neve no noroeste da Índia, Paquistão, Afeganistão e outras partes da Ásia Central.
 

 

E pelo mundo?
 

 

Com base em informações fornecidas por navios, aviões e satélites, o estudo sobre a nuvem negra da Ásia analisou os meses de Inverno do hemisfério norte no período de 1995 a 2000.
 

 

Deste modo, os cientistas puderam analisar outras partes do mundo, como as Ilhas Maldivas, para ver como a nuvem tem afectado o clima.
 

 

Os cientistas descobriram, então, que a névoa reduz a luz solar – promovendo o aquecimento da atmosfera - mas também que cria chuva ácida, uma séria ameaça para árvores e colheitas, que contamina os oceanos e afecta a agricultura.
 

 

No entanto, os cientistas dizem que precisam ainda de informações mais específicas, mas antecipam que o impacto regional e global dessa nuvem poluente vai intensificar-se nos próximos 30 anos, quando se estima que a Ásia terá cinco biliões de habitantes.
 

 

Para Paul Crutzen, que participou do estudo e é um cientista premiado com o Nobel e um dos primeiros a identificar as causas do buraco na camada de ozono da Terra, cerca de dois milhões de pessoas morrem na Índia a cada ano devido à poluição atmosférica.
 

 

Na próxima fase do projecto, os cientistas vão recolher dados de toda a região asiática durante mais estações do ano e com mais locais de observação.
 

 

Mas, como o tempo de vida dos poluentes é curto e podem ser levados pela chuva, os cientistas têm esperanças de que se os asiáticos usarem outros meios para queimar combustíveis _ como melhores fogões e fontes de energia mais limpas _, o problema pode ser amenizado.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

 

Fontes: Agências internacionais e BBC
 

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