Mudar o «guarda roupa» pode marcar a diferença entre a vida e a morte

É assim que sobrevivem as bactérias da espécie Bacteroides fragilis

03 dezembro 2001
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O corpo humano é o albergue de milhões de microorganismos que vivem no seu interior e à sua superfície sem serem importunados pelo sistema imunológico. Relativamente às espécies que vivem no intestino, isso significa que têm alimento à disposição sem, no entanto, prejudicarem de qualquer forma o nosso organismo.
 

 

Até agora, os cientistas não conseguiam encontrar razões que explicassem a forma como estes microorganismos conseguem escapar à imuno-vigilância do nosso corpo mas parece que, finalmente, encontraram uma resposta.
 

 

Todas as células vivas apresentam a sua superfície revestida por açúcares, produzidos no seu interior. Este revestimento é utilizado para que as células sejam reconhecidas pelo sistema imunológico como «células próprias» (células do organismo) ou «células não próprias» (células estranhas ao organismo). Ora, os microorganismos que compõem a flora intestinal deveriam ser reconhecidos como «não próprios» mas não o são. Porquê?
 

 

Como se escapa ao sistema imunológico?
 

 

Laurie E. Comstock, investigadora na Harvard Medical School, coordenou uma pesquisa com uma espécie bacteriana que faz parte da composição da flora intestinal. As experiências realizadas pelo grupo coordenado por L. E. Comstock com a espécie Bacteroides fragilis revelaram que este microorganismo consegue alterar o revestimento químico da sua superfície externa, evitando, desta forma, o seu reconhecimento pelo sistema imunológico humano.
 

 

De acordo com o artigo publicado na revista Nature, as bactérias desta espécie produzem pelo menos oito tipos diferentes de açúcares (polissacarídeos) de superfície. Desta forma, estas bactérias modulam o seu revestimento químico, produzindo um açúcar de superfície diferente consoante as circunstâncias ambientais em que se encontram.
 

 

De acordo com L. E. Comstock, é possível que, se o sistema imunológico estiver preparado para atacar as bactérias que possuem um determinado açúcar de revestimento, estas bactérias possam utilizar um polissacarídeo diferente para escapar a essa detecção.
 

 

Mudar a fatiota pode fazer a diferença
 

 

Isto significa que em dois indivíduos diferentes, as bactérias desta espécie podem apresentar revestimentos exteriores diferentes e, no mesmo indivíduo, esse revestimento pode mesmo variar conforme a alterações do meio intestinal.
 

 

Segundo a coordenadora deste estudo, é esta capacidade de alteração da superfície externa que funciona como um autêntico disfarce perante as células do sistema imunológico.
 

 

Apesar desta importante descoberta, o modo como o sistema imunológico reage aos microorganismos que compõem a flora intestinal ainda é desconhecido. Para estes investigadores, esse assunto ainda permanece uma verdadeira «caixa preta», como afirmou L. E. Comstock numa entrevista concedida à agência Reuters.
 

 

A flora intestinal é maioritariamente constituída por microorganismos comensais. Normalmente, estes seres competem com outros microorganismos invasores que, sem esta acção, seriam potencialmente patogénicos para o corpo humano. No entanto, ocasionalmente, a própria flora intestinal pode estar envolvida no desenvolvimento infecções graves. É o que acontece, por exemplo, quando ocorre um ferimento no intestino e a flora intestinal infecta outros órgãos da cavidade abdominal.
 

 

Segundo L. E. Comstock e seus colaboradores, o facto destes microorganismos conseguirem permanecer vivos é muito bom, uma vez que conseguem resistir e ajudar na defesa do nosso organismo contra organismos patogénicos ao mesmo tempo que resistem a vários antibióticos e às alterações próprias do meio intestinal. Segundo os autores, este estudo sugere que uma mudança ocasional de «guarda-roupa» é, mesmo para os seres microscópicos, uma forma de conseguir sobreviver.
 

 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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