Monóxido de carbono trava arterioesclerose em ratinhos

Investigador português dirige estudo nos Estados Unidos

23 janeiro 2003
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Um investigador português liderou um estudo conduzido nos Estados Unidos que conseguiu travar o desenvolvimento da arteriosclerose em ratos e que tem aplicações prometedoras no homem.
 

 

Através da administração de doses muito baixas de monóxido de carbono (CO), um gás potencialmente mortífero, os investigadores conseguiram travar nos animais o desenvolvimento da arterioesclerose, a primeira causa de morte na Europa e Estados Unidos.
 

 

Miguel Soares, 34 anos, dirigiu o estudo que vai ser publicado na edição de Fevereiro da revista «Nature Medicine», realizado em três laboratórios norte-americanos (Universidades de Pittsburgh, Harvard e Yale).
 

 

«Já sabíamos que existe uma enzima no corpo humano, a Heme oxygenase 1, que produz monóxido de carbono e que, em situações de stress, as células aumentam a produção desta enzima e, consequentemente, de CO», explicou, em declarações à Agência Lusa, Miguel Soares, actualmente investigador principal do Laboratório Associado conjunto do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), com o Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) e Instituto de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET), liderando um grupo de investigação na área da Inflamação.
 

 

Outros estudos
 

 

Em 1998, o investigador participou num estudo (também publicado pela Nature Medicine) que revelou que esta enzima consegue impedir a rejeição de transplantes realizados em seres humanos. «A questão que se colocava agora era saber se o monóxido de carbono poderia proteger contra outro tipo de doenças, concretamente as lesões arterioescleróticas», precisou o investigador, que dirigiu o estudo a partir do Departamento de Cirurgia do Hospital Beth Israel Deaconess Medical Center da Universidade de Harvard, em Boston (Massachusetts).
 

 

As lesões arterioscleróticas, explicou, são causadas pela proliferação descontrolada das células musculares dos vasos sanguíneos, acumulando-se até o sangue não poder passar.
 

 

Efeitos benéficos do CO
 

 

Pela primeira vez, os investigadores conseguiram provar que a inalação de doses muito baixas de CO reduzia os problemas de reacção do sistema vascular derivados de intervenções cirúrgicas como o transplante de órgãos ou as angioplastias por balão (reabertura de vasos obstruídos).
 

 

O estudo dirigido por Miguel Soares demonstrou que a exposição de ratinhos a quantidades mínimas de CO reduz quase totalmente o espessamento da parede vascular (hiperplasia) que normalmente se segue a tais intervenções, condicionando o seu sucesso terapêutico. «As doses utilizadas foram muito baixas: 250 partes de CO para um milhão de partes de ar, níveis muito bem tolerados por animais», acrescentou.
 

 

Utilidades
 

 

Segundo Miguel Soares, o objectivo é utilizar esta descoberta para produzir uma forma clínica (por exemplo, um comprimido que «largue» monóxido de carbono) de impedir estas lesões arterioscleróticas. Actualmente, a técnica está a ser testada em porcos e, numa fase muito inicial, em seres humanos.
 

 

Em paralelo, iniciou-se no final de 2002 no IGC um estudo que visa compreender o mecanismo molecular pelo qual o CO actua nas células musculares dos vasos sanguíneos.
 

Perceber o que se passa dentro da célula poderá permitir que, no futuro, venham a ser utilizadas outras técnicas (menos tóxicas) e que alcancem o mesmo efeito. Ou seja, agir no alvo do monóxido de carbono, sem o utilizar.
 

«Este estudo, que agora está a ser prosseguido em Portugal, demonstra como é importante investir na investigação científica», realçou o investigador português.
 

 

Fonte: Lusa

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