Medo de ficar mal falado?

Preocupação com reputação ajuda a inibir instinto egoísta

05 fevereiro 2002
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“Será que vão levar a mal?”, “Que nomes me irão chamar?”, “Acho que não fica bem esta atitude” . Estas são, com certeza, pensamentos que nos batem na cabeça cada vez que nos confrontamos com a tomada de uma decisão que poderá ter implicações da vida de outros.
 

 

É precisamente essa preocupação com a nossa reputação que pode ajudar a neutralizar instintos egoístas inerentes à humanidade, informou um estudo publicado recentemente na revista Nature.
 

 

A equipa do departamento de ecologia evolutiva do Instituto Max Planck de Limnologia, Alemanha, iniciou um estudo tendo em vista uma questão: quais seriam os mecanismos que estimulam as pessoas a cooperar entre si quando os instintos naturais geralmente colocam os interesses individuais acima dos colectivos.
 

 

De facto, existem várias situações em que a reputação é muito importante para o processo de tomada de decisão de uma pessoa.
 

 

Dinheiro em jogo
 

 

Em experiências anteriores já se havia confirmado que, regra geral, as pessoas têm atitudes bem definidas. Num teste de cooperação bastante conhecido, os jogadores são colocados num grupo no qual podem beneficiar muito ao contribuir financeiramente de forma colectiva para um fundo comum, apesar de lhes darem incentivos para optar por um ganho pessoal maior. Neste tipo de experiências, os investigadores verificam que, sem avaliações ou recompensas para controlar o interesse pessoal, a tendência para cooperar com os outros elementos da equipa diminui de modo contínuo.
 

 

Neste estudo, a equipa do Instituto Max Planck avaliou estudantes que participaram em dois jogos de dinheiro (tipo monopólio): o primeiro destina-se a um benefício comum, no qual os participantes doam dinheiro publicamente para um fundo partilhado por todos; no segundo, chamado jogo da reciprocidade indirecta, os alunos oferecem publicamente dinheiro para outros elementos da equipa, mas nunca recebem como retorno doações directas dessas pessoas.
 

 

Como esperado, quando os voluntários simplesmente participaram no jogo do benefício comum, a cooperação entre o membros do grupo diminuiu de forma regular. No entanto, quando os jogadores alternaram as actividades, os níveis de cooperação permaneceram altos, motivados pela reputação desenvolvida no primeiro exercício.
 

 

Para explicar esta atitude, os cientistas levantaram a hipótese de que tudo isto ocorreu porque os participantes "sovinas" criaram uma reputação negativa e foram "punidos" pelos companheiros no jogo seguinte, o de reciprocidade indirecta. Os avarentos estiveram, por isso, mais motivados a cooperar quando voltaram a participar no jogo do benefício comum.
 

 

Fragilidade humana
 

 

Para os cientistas, a motivação de cooperar é frágil: quando os jogadores não esperavam continuar no jogo de reciprocidade indirecta, a cooperação no jogo do benefício comum voltou a diminuiu.
 

 

De modo geral, os voluntários que alternaram os exercícios apresentaram altos índices de cooperação no jogo do benefício comum, o que resultou em maiores ganhos para todos os jogadores envolvidos. Mas só porque, a cooperação no jogo do benefício comum valia a pena.
 

 

Tudo porque, explica o biólogo Dirk Semmann, um dos autores do estudo, "os grupos que alternaram os dois jogos, e foram mais cooperativos no primeiro, conseguiram significativamente mais dinheiro".
 

 

Estes dados podem não alterar, em nada, a sociedade, mas, segundo Semmann, são indicadores que ajudam a entender por que razões e sob determinadas condições as pessoas não vão cooperar de modo nenhum.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

 

 

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