Médicos anunciam primeiro transplante de útero
07 março 2002
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Médicos árabes tornaram pública a notícia da primeira cirurgia de transplante de útero realizada no mundo. A paciente - que recebeu o órgão - é uma mulher de 26 anos e foi operada na Arábia Saudita em Abril de 2000. Mas só agora a equipa que a operou publicou um artigo sobre o assunto, no International Journal of Gynaecology & Obstetrics.
 

A experiência inédita vem reforçar as esperanças de mulheres que não podem ter filhos por terem o útero mal formado, danificado, ou, por terem sido vítimas de tumores graves ou de danos no colo do útero.
 

 

A jovem operada pela equipa médica saudita foi submetida, há seis anos atrás, a uma histerectomia (cirurgia para retirar o útero) após uma grave hemorragia durante uma cesariana, mas recebeu o útero de uma outra mulher, 20 anos mais velha, que tinha feito remoção voluntária do útero.
 

Segundo o artigo apresentado, três meses após o transplante, os médicos tiveram de remover temporariamente o útero porque surgiram coágulos.
 

 

Mesmo assim, a equipa de quatro especialistas afirma que a cirurgia foi bem-sucedida porque o órgão tem vindo a responder bem desde então. Para completar o tratamento, a paciente toma regularmente doses dos hormonas femininas ( estrógeno e progesterona) para reforçar o revestimento do útero.
 

 

Dificuldades e perigos
 

 

Enquanto os restantes órgãos do corpo humano são irrigados por veias largas, o útero é alimentado por uma rede de vasos sanguíneos estreitos. Por isso, o estabelecimento de uma irrigação correcta é bastante difícil, o que torna esse tipo de transplante mais perigoso. Além disso, as veias que alimentam o útero precisam ser capazes de triplicar seu tamanho durante uma eventual gravidez.
 

 

Para o chefe da equipa, Wafa Fageeh, do Hospital King Fadah de Jidá, esta operação pioneira poderá tornar-se numa técnica para o tratamento centenas de mulheres inférteis a curto prazo. No entanto, mantém-se cauteloso quanto ao futuro deste possível tratamento: «São necessárias mais experiências clínicas, bem como o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas para fazer do transplante uterino um tratamento útil para os casos de infertilidade, principalmente em comunidades onde o conceito de "barriga de aluguer" é inaceitável do ponto de vista religioso ou ético", afirmou Wafa Fageeh no artigo publicado na revista médica.
 

 

Enquanto alguns médicos consideraram a operação como um desenvolvimento significativo, um reputado especialista britânico declarou à BBConline que a cirurgia foi um fracasso total e pode pôr em risco a vida das mulheres. «Coágulos sanguíneos são exactamente o que se pode esperar e foi o que aconteceu em todas as experiências feitas anteriormente em animais», enfatizou Robert Winston. E acrescentou: «É lamentável que as esperanças das mulheres tenham aumentado dessa forma».
 

 

Mas as opiniões divergem. Para um editorial da revista, Louis Keith, da Escola de Medicina da Universidade do Noroeste, e Giuseppe Del Priore, do Centro Médico da Universidade de Nova Iorque, a importância da experiência não pode ser subestimada. «Para algumas pessoas, o facto de ser mãe é o maior acontecimento da vida. Para elas, o transplante de órgãos reprodutivos não seria considerado desnecessário ou fútil, mesmo que este tipo de intervenção não salve vidas», afirmaram.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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