Médico que operou siamesas iranianas admite falhas

Neurocirurgião faria intervenção de forma diferente

14 julho 2003
  |  Partilhar:

O neurocirurgião americano que participou da tentativa fracassada de separação das gémeas iranianas Laleh e Ladan Bijani, de 29 anos, que acabaram por morrer durante a cirurgia, realizada em Singapura, admitiu que a operação deveria ter sido feita de forma «diferente».
 

 

As gémeas, ligadas pela cabeça, morreram devido à excessiva perda de sangue durante a cirurgia. Segundo Benjamin Carson, a cirurgia deveria ter sido feita em três ou quatro etapas durante algumas semanas, e não num único procedimento cirúrgico.
 

 

«Acho que teria feito uma grande diferença», afirmou o médico, que dirige a especialidade de neurocirugia pediátrica do Centro Infantil Johns Hopkins, em Baltimore, Estados Unidos. Carson também admitiu que deveria ter-se centrado mais na separação do tecido cerebral, que tinha consolidado nos últimos anos.
 

 

«Acredito que um dia gémeos como Laleh e Ladan terão vidas normais e uma separação segura. E elas terão contribuído significativamente para isso.»
 

 

As gémeas tinham recebido um diagnóstico de 50 por cento de possibilidades de sobrevivência na operação. Carson disse que tentou convencer as gémeas a não se separar, mas aceitou fazer a cirurgia depois das duas lhe terem dito que preferiam morrer a continuar a viver daquela forma.
 

 

O cirurgião disse à BBC que toda a equipa médica ficou extremamente triste quando as gémeas morreram. E voltou a reforçar que a operação foi muito mais complexa do que tinha imaginado inicialmente.
 

 

O crânio era mais denso do que o esperado, os tecidos dos cérebros das duas gémeas tinham-se fundido em parte e a pressão sanguínea das duas (principalmente a do cérebro) mostrou-se mais instável do que o previsto.
 

 

Os médicos chegaram a consultar a família sobre a possibilidade de fazer uma segunda cirurgia mais tarde, mas
 

os familiares preferiram continuar com o plano inicial.
 

 

Para o cirurgião português Gentil Martins, a morte das duas gémeas poderá estar relacionada com uma má orientação por parte da equipa médica que operou em Singapura. Em declarações à agência Lusa, Gentil Martins considerou «inacreditável» que os médicos tivessem demorado seis horas a abrir o crânio comum das gémeas iranianas e afirmou não compreender o longo tempo da intervenção cirúrgica.
 

 

Ressalvando não conhecer os dados técnico-científicos da operação e da condição das siamesas iranianas, Gentil Martins disse ainda não perceber a razão que levou a equipa do hospital de Singapura a querer restaurar um vaso de ligação que existia entre os cérebros das siamesas.
 

 

«As duas têm cérebros. Parece-me um erro de base que, se têm cérebros separados, se vá tentar implantar um vaso numa delas que não existia. Esse vaso seria para eliminar, já que todos os vasos importantes existiam em cada uma delas», precisou. Gentil Martins disse ainda que «se as gémeas tivessem vindo a Portugal» a operação não lhes seria recusada e «talvez tivesse sido melhor».
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

Jornalista
 

MNI-Médicos Na Internet
 

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.