Medicina Tropical: Cooperação na área da saúde instrumento de política externa

Entrevista com o Director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical

02 outubro 2002
  |  Partilhar:

A cooperação na área da saúde é estrategicamente determinante nas relações entre países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento, envolvendo investimentos que são mais reprodutivos do que aqueles que possam ser feitos em educação.
 

 

A opinião é do director do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), entidade integrada na Universidade Nova de Lisboa que assinala este ano o seu centenário.
 

 

Jorge Torgal afirma que o IHMT, com sede na Junqueira, Lisboa, é a face mais visível dessa política de cooperação internacional numa perspectiva de desenvolvimento de Portugal.
 

 

Instituição de investigação e de ensino, o IHMT é, nas palavras do seu director, a entidade nacional capacitada para participar na conceptualização das estratégias políticas, na definição, programação, organização, efectivação e avaliação da cooperação em saúde.
 

 

"Existe actualmente uma conjuntura internacional que faz com que haja uma grande preocupação com a cooperação na área da saúde", explicou Jorge Torgal, em declarações à Agência Lusa.
 

 

"Daí que o instituto mantenha uma relação de parceiro privilegiado do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Ministério da Saúde no apoio em termos de saúde a países estrangeiros", indicou, ressalvando a existência de protocolos com os cinco países de Língua Oficial Portuguesa.
 

 

Protocolos
 

 

Virado para essa cooperação internacional, que Jorge Torgal pretende manter como prioritária durante o seu mandato, o IHMT assinou um protocolo com a Agência Portuguesa de Apoio ao Desenvolvimento para a abertura de Centros de Medicina Tropical em Moçambique (cidade da Beira), em S. Tomé e Príncipe, e a reabertura do Centro da Guiné-Bissau.
 

 

"Os centros deverão estar abertos até ao final do próximo ano, apesar da instabilidade política nestas regiões poder condicionar os prazos previstos", disse.
 

 

"Sabe-se hoje que o investimento em saúde é mais reprodutivo em termos de possibilidade de desenvolvimento para os países em vias de desenvolvimento que o investimento feito noutras áreas, como a educação ou a edificação de fábricas", explicou.
 

 

"Além disso, existe a vertente humanitária, de ética no relacionamento entre os povos que faz com que haja uma preocupação na área da saúde", continuou.
 

 

Para isso foi assinado, em 2001, um Protocolo com o Instituto de Cooperação Portuguesa tornando o IHMT na entidade privilegiada para consulta e parecer sobre a definição de políticas sectoriais no âmbito da cooperação para o desenvolvimento no domínio da saúde.
 

 

No mesmo ano, o Ministério da Saúde atribuiu ao instituto a responsabilidade da cooperação no domínio da Sida com os PALOP (países africanos de língua oficial portuguesa).
 

 

100 anos de história
 

 

No entanto, as potencialidades do instituto na área da medicina tropical, consequentes dos cem anos de história que o tornam no quarto mais antigo do ramo no mundo, têm embatido em dificuldades, nomeadamente financeiras.
 

 

"Se bem que tenha sido assinado um novo protocolo de cooperação com o Hospital Egas Moniz, estrangulamentos e obstáculos legais, dificuldades estruturais e organizativas dificultam que as competências do IHMT contribuam, como entendemos que poderiam e deveriam fazer, para um forte desenvolvimento da medicina tropical em Portugal", considerou.
 

 

"Além disso, face às dificuldades decorrentes de um orçamento (integrado no orçamento geral da Universidade) que apresentava no início do ano de 2001 uma previsão de 90 por cento da despesa em salários, definiu-se como linha estratégica basilar o princípio da auto-sustentabilidade da investigação pelos financiamentos externos, do ensino pelas propinas e da cooperação por terceiras entidades", continuou.
 

 

"Basicamente funciona da seguinte forma: os projectos que têm dinheiro arrancam, os que não o têm não funcionam", disse.
 

 

Segundo números relativos a 2001, o IHMT tinha 131 funcionários, desses, 44 eram pessoal docente, sendo a investigação científica resultado da actividade de 30 doutores, que tinham 34 projectos submetidos a financiamento.
 

 

No entanto, ao longo de cem anos de história que Jorge Torgal considera um espelho dos valores, conceitos, da história política e social do próprio país, nem sempre a missão do IHMT foi visível e tida como determinante.
 

 

"A dissolução do instituto chegou a estar em cima da mesa do Conselho de Ministros depois do 25 de Abril e da descolonização, e entre 1974 e 1980 o IHMT esteve sob a alçada de seis ministérios, o que demonstra que ninguém sabia muito bem para que é que ele servia e o que se deveria fazer com ele", referiu.
 

 

Enquanto isso, países como Inglaterra, Alemanha e Bélgica, estes dois últimos sem grande história enquanto potências coloniais, mantiveram e apoiaram os seus institutos de medicina tropical, segundo Jorge Torgal.
 

 

Viragem
 

 

O momento de viragem na vida recente do instituto aconteceu quando, em 1980, o IHMT foi integrado na Universidade Nova de Lisboa, focalizando a sua actividade na investigação, a par das vertentes de ensino e cooperação.
 

 

A criação de centros de investigação financiados pelo antigo Ministério da Ciência e da Tecnologia (MCT), o Centro da Malária e outras Doenças Tropicais em 1993 e a Unidade de Parasitologia e Microbiologia Médica em 1994, relançou ainda mais a investigação do instituto, corporizando a sua importância.
 

 

O último passo dado no sentido da reorganização e redefinição de funções aconteceu em 1997, altura em que o director do IHMT passou a ser escolhido através de um concurso internacional, por um Conselho Geral que compreende membros exteriores à Universidade, seguindo modelos vigentes em universidades britânicas e norte-americanas.
 

 

"Isso fez com que a dinâmica da investigação melhorasse", comentou.
 

 

Uma investigação que a cada dia se torna mais indispensável, até porque "as doenças tropicais são uma questão global, não há fronteiras para os agentes infecciosos", lembrou Jorge Torgal.
 

 

"Cada vez se viaja mais e para destinos mais exóticos", disse, o que faz com que o mundo actual seja de viajantes e imigrantes, sendo necessário que haja preparação dos médicos e enfermeiros em doenças tropicais, outra das funções do IHMT.
 

 

Como escola de pós-graduação, o IHMT desenvolve investigação em vários domínios das ciências biomédicas (biologia molecular, microbiologia, parasitologia, entomologia, imunologia), com ênfase em tópicos relacionados com a medicina tropical, em clínica das doenças tropicais e em saúde internacional, faculta a preparação de teses de mestrado e doutoramento no âmbito dos seus projectos de investigação e organiza diversos cursos de pós-graduação.
 

 

O 11 de Setembro, notou, fez com que a saúde se tornasse numa prioridade em termos de segurança, uma vez que forçou o reconhecimento de que as doenças infecciosas são uma ameaça crescente por razões naturais ou outras, como o bioterrorismo.
 

 

Dada a tónica geral destas questões, o instituto trabalha, e vai continuar a trabalhar, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Banco Mundial, a Comunidade Europeia (onde integra uma dezena de redes de excelência), organizações não governamentais e fundações privadas para diferentes projectos, explicou.
 

 

"Além disso temos protocolos de colaboração com muitos institutos nacionais e estrangeiros, razão por que dificilmente deixaremos de trabalhar", concluiu.
 

 

Fonte: Lusa

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.