Medicina 2002: Erro de avaliação de um tratamento foi o acontecimento do ano

Terapia hormonal de substituição - um risco?

22 dezembro 2002
  |  Partilhar:

O acontecimento do ano na área da Medicina passou ao lado da descoberta de uma nova técnica ou medicamento, centrando-se antes na percepção do risco de um tratamento aceite há décadas, a terapia hormonal de substituição.
 

 

Há muitos anos que as mulheres, após a menopausa, aceitam que a terapia hormonal de substituição (uma combinação de estrogénos e progesterona) as ajudaria a viver mais tempo e com melhor qualidade de vida, protegendo sobretudo o coração e os ossos.
 

 

No entanto, no último Verão um estudo em larga escala da Women''s Health Iniciative nos Estados Unidos (WHI, em português algo como Iniciativa para a Saúde das Mulheres) revelou que, em vez de abrandar a doença cardíaca, a combinação de estrogénos e progesterona aumenta ligeiramente esse risco.
 

 

E, tal como já se suspeitava anteriormente, também aumenta as possibilidades de as mulheres desenvolverem cancro da mama.
 

 

Ou seja, os benefícios da terapia hormonal de substituição a longo prazo não cobrem, de forma alguma, os seus riscos.
 

 

Actualmente, os médicos estão a tentar perceber como puderam estar tão enganados acerca destas hormonas.
 

 

"Foi a mudança mais dramática na área da medicina clínica que já observei. Este tratamento deixou de ser a norma para passar a ser considerado arriscado", sublinhou Joann Manson, que dirigiu o estudo do WHI.
 

 

Esta pesquisa foi realizada com base em 16.600 mulheres, na casa dos 60 anos. Enquanto uma parte tomava a combinação hormonal, às restantes era administrado placebo (substância inócua utilizada na ciência apenas como forma de comparação).
 

 

O estudo concluiu que, além de um ligeiro aumento da incidência de cancro e ataques cardíacos, as mulheres que faziam a terapia hormonal de substituição apresentavam uma taxa ligeiramente superior de tromboses e coágulos sanguíneos e apenas ligeiramente inferior de cancros do cólon e fracturas.
 

 

Os médicos concluíram que, para as mulheres que já ultrapassaram há muito a menopausa (o caso das que participaram no estudo), a recomendação é não tomar hormonas como forma de prevenir doenças próprias do envelhecimento.
 

 

No entanto, os resultados deste estudo podem ter um efeito perverso, já que muitas mulheres para quem um tratamento hormonal de curta duração poderia ser benéfico para aliviar os sintomas da menopausa se recusam a tomar a combinação de estrógenos e progesterona.
 

 

"Penso que este terá sido o acontecimento da década", afirmou Lori Mosca, director do serviço de cardiologia preventiva no Hospital Presbiteriano de Nova Iorque.
 

 

Segundo o médico, a conclusão a retirar para o futuro é que antes de implementar largamente um tratamento para prevenir doenças que poderão nem sequer chegar a desenvolver-se são necessários estudos em larga escala.
 

 

A generalização da terapia hormonal de substituição fez-se com base na convicção, apoiada em estudos observacionais, de que as hormonas femininas ajudariam a reduzir os ataques cardíacos, já que as mulheres sofrem deste problema numa idade mais tardia do que os homens.
 

 

No entanto, faltava realizar um estudo clínico que incluísse o controlo com placebo para que se pudessem retirar conclusões definitivas.
 

 

Fonte: Lusa

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.