Medicamentos personalizados... a polémica está a começar
16 novembro 2001
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O desenvolvimento de tratamentos medicamentosos personalizados parece ser, de facto, o futuro da farmacologia. Um novo ramo da farmacologia, a farmacogenética, estuda o desenvolvimento de medicamentos adaptados e específicos para o perfil genético do paciente.
 

 

Esta nova abordagem da farmacologia representa um progresso significativo na terapêutica medicamentosa na medida em que pode reduzir significativamente as reacções adversas normalmente associadas aos efeitos colaterais da maior parte dos medicamentos.
 

 

De acordo com um estudo coordenado por Kathryn A. Phillips, da California University, San Francisco (EUA), o sequenciamento do genoma humano representa o início de uma nova era da medicina na qual o tratamento será adequado ao perfil genético de cada paciente.
 

 

No entanto, Phillips e seus colaboradores alertam que as conclusões do estudo, publicado esta semana no Journal of the American Medical Association, não se baseiam em qualquer avaliação sistemática do potencial da farmacogenética na redução dos efeitos secundários associados a todos os medicamentos.
 

 

O minucioso trabalho de Phillips e colaboradores
 

 

Para avaliarem a relação entre os genes e a reacção do organismo aos medicamentos, a equipa de Phillips fez uma revisão de estudos sobre diversos medicamentos e a variabilidade genética das enzimas que os metabolizam no organismo. A via de processamento de um medicamento é considerada como o principal factor no desenvolvimento de uma reacção adversa.
 

 

Os investigadores verificaram que 27 drogas desencadearam reacções adversas graves em dois ou mais estudos. Destas, 59% eram metabolizadas por uma enzima cujas variações genéticas estão estritamente relacionadas com problemas metabólicos.
 

 

Das drogas seleccionadas aleatoriamente, apenas 22% foram metabolizadas pela enzima afectada pela variabilidade genética. Quando os investigadores limitaram a selecção de medicamentos aos mais vendidos, verificaram que apenas 7% foram metabolizados por enzimas afectadas pela variação genética.
 

 

O que significam estes resultados?
 

 

Segundo Phillips e seus colaboradores, estes resultados indicam que se os medicamentos forem geneticamente alterados de modo a se adaptarem às variações genéticas específicas de cada indivíduo, isso poderá reduzir grandemente as reacções adversas dos mesmos.
 

 

No entanto, «levar a farmacogenética da bancada do laboratório para a mesa de cabeceira é um desafio», alerta a equipa de Phillips. Actualmente, a análise genética é usada para desenvolver terapias apenas em situações bem especificadas.
 

 

«Uma mensagem fundamental do nosso estudo é que precisamos considerar quais são os usos mais promissores da informação genética e dar prioridade a estas áreas para oferecer o benefício máximo para todos», afirmou aquela investigadora à Reuters Health. Phillips disse ainda que a sua equipa espera que o perfil genético seja usado não apenas para evitar reacções adversas aos medicamentos, mas também para eliminar aqueles pacientes que não seriam beneficiados por um determinado medicamento.
 

 

Investigadores alertam: «Alguns grupos de pessoas podem não ser beneficiados»
 

 

As indústrias farmacêuticas podem usar as informações genéticas para desenvolver medicamentos mais eficazes e seguros para grupos específicos de doentes.
 

 

Esta possibilidade levanta questões sobre o custo e problemas sociais e éticos que não podem ser ignorados: «O que acontecerá quando um paciente disser : “Ouvi falar de uma nova droga contra asma”. E o médico responder: “Sim, mas é só para brancos?”», questiona a equipa de Phillips.
 

 

Não podemos ignorar que factores como a raça são condicionados pela informação genética de cada indivíduo pelo que o desenvolvimento de medicamentos personalizados favorecerá, inevitavelmente, algumas terapias que serão usadas com mais frequência por determinados grupos de pessoas.
 

 

Estes assuntos têm de ser rigorosamente avaliados para que a comunidade científica possa oferecer, com os conhecimentos de que dispõe, o máximo de benefícios para todos, sem excluir determinados grupos de indivíduos.
 

 

Como afirma a coordenadora deste trabalho: «estamos nos estágios iniciais da compreensão de como a genética pode influenciar a respostaaos medicamentos. O nosso estudo representa apenas a ponta do iceberg.»
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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