Medicamentos falsificados vendidos em países subdesenvolvidos

Dois novos estudos reabrem a urgente discussão da fiscalização de fármacos nos países subdesenvolvidos

17 junho 2001
  |  Partilhar:

Duas investigações feitas em países do Sudeste Asiático e na Nigéria e publicadas na edição de sábado do "The Lancet", voltam a alertar para os perigos de medicamentos falsificados.
 

 

A equipa de Paul Newton investigou 104 amostras de medicamentos fundamentais no tratamento da malária multi-resistente - causada por Plasmodium falciparum (cuja substância activa é o artesunato) - comprados em farmácias, lojas, organizações não-governamentais e hospitais em Myanmar (Burma), Cambodja, Vietname, Laos e Tailândia Ocidental. A equipa descobriu que pouco mais de um terço das embalagens não continham artesunato e eram, portanto, falsas. A maioria das amostras falsas vinham como tendo sido fabricadas pela Guilin Pharma (China), o maior produtor de artesunato na Ásia.
 

 

Estes investigadores usaram um teste de coloração simples, barato e eficaz e recomendaram o uso deste método naqueles países. O custo (que chegava a ser 30% a 45% do preço do medicamento real) bem como o aspecto geral da embalagem e dos comprimidos previa, de forma fiável, a veracidade dos mesmos.
 

 

O aparecimento destes medicamentos falsificados já provocou a morte a vários doentes com malária que, de outra forma, teriam sobrevivido se tivessem tomado o medicamento verdadeiro.
 

 

Um segundo estudo, liderado por R. B Taylor , investigou a composição de 581 amostras de 27 medicamentos diferentes comprados em 35 farmácias de duas regiões da Nigéria (Lagos e Abuja).
 

 

A equipa de investigadores analisou a presença, e em que quantidades, da substância activa em cada fármaco e descobriu que 48% destes não respeitavam os limites apresentados nas farmacopeais. Isto significa que tinham a substância activa a mais ou a menos, uniformemente em todos os tipos de fármacos.
 

 

Em muitos destes casos, a discrepância entre os valores obtidos e os estipulados não resultava numa alteração do resultado do tratamento (ex: abtibióticos). No entanto, o uso de algumas daquelas substâncias levaria a um aumento substancial da morbilidade ou morte. Algumas das drogas anti-malária tinham menos de 25% de substância activa. Cinco amostras de suspensão de mitronidazole e algumas amostras de pirazinamida não continham qualquer vestígio de substância activa.
 

 

As causas prováveis foram apontadas pelos autores como sendo a produção de medicamentos falsificados em larga escala nos países menos desenvolvidos, a deterioração dos compostos activos em regiões tropicais devido às condições de temperatura e humidade e o fraco controlo de qualidade dos produtos a serem manufacturados.
 

 

A prática demonstrada por estes dois estudos é já bastante corrente e comum. Um estudo anterior elaborado no Camboja havia encontrado grandes quantidades de artesunato e mefloquina falsas, bem como pílulas contraceptivas falsificadas no Brasil.
 

 

Geralmente a fiscalização dos fármacos previne calamidades públicas. O Biologics Control Act, EUA, lavrou em acta, no ano de 1902, o resultado da morte de 10 crianças que consumiram uma antitoxina para a difeteria que continha bacilus causadores do tétano. A morte de 105 pessoas, em 1938 nos EUA, provocada pelo consumo de um elixir de sulfanilimida com glicol dietileno, em vez de glicol propileno levou ao aparecimento da US Federal Food, Drug and Cosmetics Act. Outro escândalos ocorreram, nomeadamente em 1968 no Reino Unido.
 

 

A falsificação de fármacos convencionais está a diminuir nos países desenvolvidos, mas são muito correntes (e perigosos) em países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento.
 

 

Helder Cunha Pereira
 

MNI - Médicos Na Internet
 

 

Fonte: The Lancet

Partilhar:
Ainda não foi classificado
Comentários 0 Comentar

Comente este artigo

CAPTCHA
This question is for testing whether you are a human visitor and to prevent automated spam submissions.
Incorrecto. Tente de novo.
Escreva as palavras que vê na imagem acima. Digite os números que ouviu.