Manipulação genética...

Estaremos a seguir o caminho da eugenia?

07 outubro 2001
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A preocupação da sociedade actual para com o controlo que os genes têm sobre as nossas vidas poderá estar a conduzir-nos o perigoso caminho da eugenia. Esta é a advertência de Garland Allen, biólogo que se dedica ao estudo da História da Ciência.
 

 

Garland Allen é professor de biologia na Universidade de Washington, em Saint Louis, Missouri (EUA) e expõe e explica a sua tese num ensaio na edição de 5 de outubro da revista Science. «Caminhamos em direcção a uma nova versão da eugenia?» escreve Allen. «Estamos a ser levados pela falsa promessa de uma solução tecnológica para problemas que, na realidade, estão na estrutura da nossa sociedade? A minha resposta a esta questão é SIM.»
 

 

As premissas de G. Allen
 

 

A pesquisa de Allen centra-se na história da eugenia. A eugenia foi um movimento popular nos Estados Unidos e na Alemanha nas primeiras décadas do século 20 que recorreu e usou a genética, recém-descoberta naquela altura, para tentar melhorar a sociedade, evitando que os indivíduos considerados «geneticamente inferiores» se reproduzissem. Durante este período, mais de 35 estados norte-americanos aprovaram leis eugénicas que permitiram a esterilização forçada de cidadãos declarados geneticamente inferiores.
 

 

Allen argumenta que o ênfase actual à supremacia dos factores genéticos no desenvolvimento humano possui uma extraordinária semelhança com as atitudes dos proponentes da eugenia do século passado, que tentaram responsabilizar as, então, recém-compreendidas teorias da hereditariedade pelas falhas físicas e comportamentais das pessoas.
 

 

«O movimento mais antigo pela eugenia ressaltou a existência de uma base genética para todos os tipos de comportamentos sociais, com a implicação que os problemas sociais poderiam ser solucionados por métodos genéticos», afirmou G. Allen numa entrevista à agência Reuters. «Esta era uma forma de desviar a atenção dos problemas sociais e económicos, dando-lhes uma explicação biológica.»
 

 

Allen acredita que a revolução social e económica ocorrida no século passado contribuiu para a popularização da eugenia. Novas formas de revolução ocorrem hoje em dia, tais como a globalização e a diminuição da cobertura do sistema de saúde.
 

 

«Em ambos os períodos houve avanços significativos na boa genética, mas estas mesmas alegações dúbias foram feitas nos dois períodos», afirmou ele. «Estas alegações têm agora a mesma função que tiveram no passado quando atribuem culpas à constituição biológica das pessoas pelos problemas sociais com que nos deparamos todos os dias», acrescentou G. Allen.
 

 

Este investigador observou que muitos dos comportamentos sociais atribuídos à genética no século passado também estão a ser considerados por geneticistas modernos como tendo uma base hereditária, tais como a esquizofrenia e a agressividade.
 

 

A eugenia moderna segundo G. Allen
 

 

Garland Allen prediz que qualquer manifestação moderna da eugenia será diferente do que ocorreu no passado. «Ela vai-se manifestar de maneiras diferentes», disse ele. «Não vamos ouvir discursos em favor da esterilização das pessoas».
 

 

Entretanto, as preocupações financeiras de empresas de seguros de saúde podem motivar decisões reprodutivas. Estas empresas podem, por exemplo, solicitar exames pré-natais e recusarem-se a cobrir os custos dos cuidados de saúde para indivíduos que apresentarem qualquer problema genético, adverte Allen.
 

 

«A imperfeição faz parte da humanidade», escreve Allen. «Será que nós queremos, realmente, que as nossas decisões, como a de trazer uma criança ao mundo, sejam guiadas pelos custos? Se a eugenia significa tomar decisões reprodutivas com base nos custos sociais, então já estamos a caminhar nesta direcção.»
 

 

Entretanto, Joann Boughman, vice-presidente executiva da Sociedade Americana de Genética Humana em Bethesda, Maryland (EUA), discorda da premissa de Allen, afirmando que «a genética de hoje não é, de modo algum, a eugenia do ano passado.»
 

 

J. Boughman continua os seus comentários da seguinte forma: «Acredito que há um grande optimismo em relação aos novos rumos que a ciência tomou, nomeadamente na compreensão da função dos genes, mas isso não nos leva necessariamente ao determinismo genético ou ao caminho sugerido por Allen. Isto pode servir para nos lembrarmos de que temos de ser muito cuidadosos com a utilização que fazemos dos conhecimentos genéticos e da manipulação genética.»
 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos na Internet

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