Males de ofício

Que pontos comuns há entre a função de um jornalista, de um taxista ou uma empregada de limpeza?

21 dezembro 2001
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Que pontos comuns há entre a função de um jornalista, de um taxista ou uma empregada de limpeza? O exercício da profissão provoca-lhes perturbações muito particulares: lombalgias, tendinites ou bursites são as mais frequentes e, sem tratamento, podem levar à doença crónica. E até à invalidez.
 

 

 

Não abuse da coluna
 

 

Dezoito anos como ajudante de motorista ao serviço de uma fábrica de rações e mais seis como taxista «premiaram» António Pereira, hoje com 43 anos, com uma «coluna descaída» e muitas noites mal dormidas.
 

 

Enquanto carregador de sacos de farinha, que chegavam a pesar 90 quilos, António sofreu na pele as consequências da má gestão dos vários locais de trabalho por onde a sua actividade o obrigou a passar.
 

 

«O sítio onde íamos descarregar a farinha, aqui num armazém Poço do Bispo, era muito pequeno e estreito. Mesmo assim, quando a pilha de sacos já era alta, o "capataz" dizia-me quase sempre para meter mais um saco, sempre mais um, tudo com a força do corpo», relembra. Queixou-se ao patrão e este respondeu-lhe que aquele «não era trabalho para deficientes». Desistiu. Seis anos depois, é taxista na Praça de Táxis de Moscavide, às portas de Lisboa.
 

 

O tempo que leva como profissional do volante não o ajudou a melhorar o débil estado a que, como carregador, transportou a sua coluna. «Quando me levanto da cama sinto umas dores que nem sei como me hei-de mexer», explica.
 

A médica de família recomendou-lhe descanso ou, na melhor das hipóteses, a reforma antecipada. Puro engano.
 

 

«O meu patrão diz que não tem confiança em mais ninguém e, por isso, não me dá a reforma». A vida arrasta-se, com jornas de nove horas e 150 quilómetros diários sobre as costas. Mas nunca pensou adaptar o assento do táxi ao seu corpo, porque se sente bem “e faz boa condução.»
 

António Pereira dorme sempre «de barriga para cima», mas as dores não passam. No Verão promete dormir no chão, sobre um colchãozito de espuma, de campista. «A ver se a coisa passa».
 

 

Mas nem só os taxistas padecem deste mal. A maioria dos adultos sofre ocasionalmente de dores nas costas.
 

As dores na região lombar afectam ambos os sexos, no entanto as mulheres padecem mais destes problemas depois dos 60 anos, ao passo que os homens começam a ter este tipo de problemas por volta dos 40 anos.
 

 

Por outro lado, a elevação de grandes pesos causa excesso de carga no esqueleto e acelera o envelhecimento biológico. Os ossos e tendões podem também ser atingidos por fadiga devido à exposição a pressões menores, prolongadas ou repetidas. Os tecidos perdem elasticidade, por não terem tempo de recuperar.
 

 

A espondilose lombar, caracterizada por pequenas projecções de osso que crescem à volta da vértebra, é umas das várias doenças onde estão incluídos estes sintomas.
 

Os trabalhadores com martelos peneumáticos são geralmente os mais afectados por dores nas costas devido às vibrações frequentes.
 

 

O resultado de tudo isto são danos na região lombar relacionados com distúrbios metabólicos nos discos entre as vértebras. Mas estes problemas podem também provocar fracturas nas vértebras.
 

 

A dor resulta da pressão exercida pela vértebra contra a raiz do nervo e pode «ramificar-se» até às pernas e braços.
 

 

O excesso de carga na coluna vertebral leva também ao aparecimento de várias patologias no pescoço e nos ombros e afecta, sobretudo, trabalhadores que têm de dobrar a cabeça por períodos prolongados. Linhas de produção e outras tarefas que exijam um bom controlo visual e alta percisão são disso um exemplo.
 

 

Mialgias ou dores musculares são queixas frequentes em pessoas com empregos, apesar de tudo, fisicamente menos violentos.
 

 

Este tipo de doenças caracteriza-se pela pressão do disco entre as vértebras e leva a um envelhecimento permaturo dos músculos e dos ossos.
 

 

São cerca de 40 os músculos do pescoço e ombros, providos de nervos. Sempre que há dor, a sua origem está no músculo do trapésio.
 

 

Metalúrgicos, mecânicos e soldadores correm dez vezes mais riscos em desenvolver estes problemas. Talhantes e empregadas de limpeza podem também desenvolver inflamações dos tendões dos ombros. A inflamação, denominada por tendinite, ocorre simplesmente porque os tendões são comprimidos e expostos a alta fricção quando se levantam os braços.
 

 

 

Pulso aberto ou tendinite?
 

 

Helena Araújo quase desesperou quando as dores no pulso a levaram a interromper a sua actividade profissional. O trabalho de uma década como jornalista sempre fez da máquina de escrever e, mais tarde, do computador pessoal, os seus principais instrumentos de trabalho. As funções de editoria num vespertino de Lisboa, as reportagens e as entrevistas de duas páginas, levavam a jornalista, hoje com 36 anos, a teclar por cada texto, em média, dez mil caracteres por dia, suficientes para preencher duas páginas de jornal.
 

 

O esforço repetido dos dedos ao longo desses dez anos resultou no aparecimento de uma leve dor no pulso. Julgou ter-se tratado de um mau jeito, até que as dores começaram a ser insuportáveis. Começou a teclar apenas com a mão esquerda.
 

 

Recorreu a uma ligadura, mas não lhe serviu de muito. Até que o seu chefe de redacção, ao ver as dificuldades por que Helena passava para digitar os textos, a obrigou, literalmente, a procurar um médico.
 

 

O ortopedista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, logo viu de que problema se tratava: tendinite. Prescreveu à jornalista uma semana de repouso total. Helena não se livrou de andar de braço ao peito durante uma semana e de ver o braço ligado durante mais 15 dias.
 

 

"Estava numa situação-limite. Os trabalhos domésticos ou o simples pegar da minha filha ao colo pareciam-me coisas impossíveis. Sentia muitas dificuldades nas tarefas mais banais", relata a jornalista, que ainda hoje mantém funções editoriais num semanário nacional.
 

 

Dois anos passados sobre a primeira consulta, Helena ainda sente, de vez em quando, um ligeiro incómodo na zona do pulso. E muito provável será que assim continue a acontecer, uma vez que o teclado do computador, que não está desenhado ergonomicamente, ainda é seu companheiro diário. «Ainda me assusto quando sinto uma ligeira dor nos tendões», desabafa. O certo é que, enquanto as suas tarefas diárias não prescindirem de um teclado ou até ao momento em que este não seja substituído por um teclado ergonómico, a tendinite pode sempre regressar.
 

 

Helena representa um caso típico daquilo a que se convencionou chamar «a doença do rato».
 

Um trabalho repetitivo como este pode provocar dor, dormência ou isensibilidade. Metalúrgicos e soldadores podem também ser vítimas destas perturbações.
 

 

Tendões inflamados nos braços, inferior e exterior, e pulsos são comuns entre talhantes e embaladores. Os riscos de problemas nos braços, mãos e pulsos são maiores em trabalhos que requerem força, em actividades que exigem rapidez e em funções que requerem a repetição de ciclos de trabalho de, no máximo, 30 segundos.
 

 

Geralmente, a doença é mais comum para aqueles que trabalham com o pulso numa posição anormal para a anatomia humana. A doença é denominada Síndroma do Túnel Cárpico e caracteriza-se por picadas, insensibilidade ou formigueiro. Neste casos, o manuseamento de objectos torna-se difícil. O risco é 14 vezes mais elevado para quem está exposto a mais de dez horas semanais de trabalho com ferramentas vibratórias. Estes instrumentos podem também afectar vasos sanguíneos, nervos, músculos e ossos.
 

 

 

Sem repouso não há cura
 

 

Maria Fernanda, 50 anos, faz limpeza em várias casas da zona de Benfica. Muitos dias chega a trabalhar 12 horas. Agora que o aspirador e a esfregona ajudam a elaborar esses serviços, Maria Fernanda sente-se mais «aliviada de trabalho». Recorda, no entanto, os problemas de saúde que teve quando encerava as escadas de várias habitações. Sempre de joelhos. «Comecei a sentir dores nos joelhos e uma grande dificuldade em dobrá-los, como se estivessem muito inchados».
 

 

O médico diagnosticou-lhe bursite, uma bolsa líquida que se forma nas articulações. Analgésicos e repouso foi a «receita» prescrita para a cura. Mas Maria Fernanda, único sustento de uma casa com três filhos menores, viu-se obrigada a continuar a trabalhar. «Às vezes volto a sentir muitas dores nos joelhos, mas tomo uns comprimidos e vou trabalhar. Tem de ser…»
 

 

Analgésicos, fisioterapia, tratamento por calor, ionização, massagem e anti-inflamatórios são as terapias aconselhadas
 

 

António Coelho, médico ortopedista, segundo o qual estas patologias têm sempre uma terapêutica muito difícil. «Nas primeiras crises, com um período mais ou menos prolongado de repouso e tratamento fisiátrico, pode conseguir-se uma situação de normalização. O não respeitar estes períodos de repouso e a repetição de todas estas crises podem levar à cronicidade, de que resultam a sequela, o aleijão, um processo inflamatório crónico e o músculo deixa de trabalhar». Por outras palavras, a invalidez.
 

 

Os primeiros sintomas são, normalmente, dor e rigidez. Ao longo do tempo, estas queixas tornam-se frequentes e constantes. O paciente sente progressivamente mais dificuldade em efectuar movimentos, desembocando, muitas das vezes, em doenças crónicas. Estes problemas atingem faixas etárias mais avançadas, mas também podem surgir em idades mais jovens.
 

 

Dançarinos profissionais, bombeiros e trabalhadores da construção civil desenvolvem afecções nas ancas e joelhos.
 

 

As posições desconfortáveis, dobrar o joelho com muita frequência e levantamento de pesos triplicam o risco de artroses do joelho. Um grupo de alto risco são as empregadas domésticas. Os desportistas profissionais, geralmente, desenvolvem artroses com o avanço da idade.
 

 

No caso da agricultura o risco é bastante elevado, uma vez que o trabalho no campo implica o levantamento excessivo e constante de pesos e a actividade é desempenhada em pé.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI - Médicos Na Internet
 

 

 

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