Maioria dos eventos adversos considerados evitáveis em 2009
20 julho 2011
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A maioria dos eventos adversos (53,2%) ocorridos em hospitais portugueses em 2009 foram considerados "evitáveis", sendo que 61% não causaram qualquer dano e 10,8% provocaram a morte do paciente, segundo um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP).

 

Os 53,2 por cento referem-se a 99 casos de eventos adversos, que englobam todas as situações anormais ocorridas em hospitais incluindo erros médicos, num total de 186 doentes.

 

Destes 186 em que se verificou um evento adverso, 113 não sofreram qualquer dano, mas 20 pessoas acabaram por morrer, o que representa uma taxa de mortalidade de 1,19%, segundo o estudo realizado em três hospitais públicos da região de Lisboa a que a agência Lusa teve acesso.

 

“O estudo tinha por objectivo conhecer a realidade dos eventos adversos em hospitais portugueses porque o que até aqui se utilizava eram estimativas feitas a partir dos resultados dos Estados Unidos”, indicou Paulo Sousa, que com António Sousa Uva, coordenou o estudo.

 

Este trabalho teve por base os processos clínicos de uma amostra de 1.669 doentes internados, num total de 47.783 admissões, referentes ao ano de 2009.

 

Financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, o estudo identificou 365 processos (21,9%) em que potencialmente aconteceu um acontecimento adverso, que se confirmou em 186.

 

Tal representa uma taxa de incidência de eventos adversos de 11%, comparável com o que se identificou noutros países como o Canadá (7,5%), Dinamarca (9,0%), Inglaterra (10,8%) e Suécia (12,3%).

 

Foram ainda registados 5,7% eventos adversos (10 em 186 doentes) que provocaram danos permanentes, incapacidade ou disfunção e 4,1% (sete em 186 doentes) que causaram danos moderados, com um período de recuperação entre um e 12 meses.

 

Segundo os dados recolhidos, em 58,2% dos eventos adversos (108 em 186 doentes) houve um prolongamento do período de internamento numa média de 10,7 dias, que se traduz num custo directo acrescido de cerca de meio milhão de euros.

 

Entre os critérios de positividade mais comuns estão as lesões ocorridas durante o internamento (como quedas, queimaduras e úlceras de pressão), 27,7% (101 em 365 casos).

 

Depois surgem a readmissão não planeada relacionada com o último episódio de internamento (últimos 12 meses), 22,2% (81 em 365 casos), a admissão não planeada relacionada com cuidado de saúde obtido anteriormente, 11,8% (43 em 365 casos) e as infecções relacionadas com a prestação de cuidados, 11% (40 em 365 casos).

 

Segundo Paulo Sousa, “há toda uma lógica de soluções ou acções que podem ser desencadeadas no sentido de diminuir essas ocorrências”.

 

Neste sentido, o professor da ENSP sublinhou, como exemplo, que o “facto de haver piso antiderrapante entre os quartos e os WC faz com que diminuam as quedas”.

 

Paulo Sousa referiu igualmente que tem de se “melhorar a comunicação entre os profissionais de saúde” e lembrou outra acção que permite reduzir os eventos adversos e já foi alvo de uma campanha da Organização Mundial de Saúde (OMS).

 

“Acções simples como a lavagem das mãos (pelos profissionais de saúde), entre doentes, faz com que haja uma diminuição real da taxa de infecções relacionadas com a prestação de cuidados de saúde”, disse.

 

O mesmo estudo salienta que em apenas 0,8% dos casos há informação escrita que refere que o doente e/ou familiares foram informados sobre a ocorrência dos eventos adversos ou que o assunto foi discutido com os mesmos.

 

“Isto pode ser explicado, em parte, pelo facto de apenas incluir os casos em que tal informação estava escrita no processo clínico. Ou seja, pode ter havido situações em que os doentes ou familiares foram informados de que tal ocorrência aconteceu, mas tal facto não foi registado no respectivo processo clínico”, indicou.

 

Os eventos adversos acontecem essencialmente nas classes etárias mais avançadas, até ao grupo dos 75-84 anos e mais aos homens, 55,4%, do que às mulheres, 44,6%.

 

Um evento adverso é um acontecimento não intencional, decorrente da prestação de cuidados de saúde que teve como consequência dano ou lesão, à altura da alta, reflectindo-se num prolongamento do período de internamento, em incapacidade temporária, permanente ou em morte.
 

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