Macacos também gostam de jogar

Estudo revela o que a dopamina faz aos símios

26 março 2003
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O vício de jogar parece ter contagiado os macacos do laboratório de Christopher Fiorillo, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. A julgar pela experiência publicada na última edição da revista «Science» (www.sciencemag.org), o vício das apostas e a paixão pelo risco são muito mais primitivos que a mente humana.
 

 

No início do estudo, Fiorillo e a sua equipa -Philippe N. Tobler e Wolfram Schultz, ambos da Universidade de Friburgo (Suíça)- treinaram os símios na tradição pavloviana. Isto é, de cada vez que aparecia um sinal no monitor, os macacos recebiam um pouco de sumo de fruta. Não demorou muito para que os macacos aprendessem que cada sinal traria dois segundos depois uma recompensa.
 

 

Analisaram então a química cerebral dos animais e verificaram um aumento de dopamina, substância normalmente associada a sensações de prazer e também à compulsão para a repetição, para reproduzir uma experiência.
 

 

«É provável que a dopamina tenha um impacto emocional forte que é normalmente percebido como positivo, embora o seu papel nas emoções seja controverso», diz Fiorillo. «O que se sabe é que ela é reforçadora.»
 

 

Depois de os macacos estarem bem treinados, os investigadores introduziram incerteza à experiência: às vezes davam a gota dois segundos após o sinal e às vezes, não. A frequência com que davam ou não a recompensa foi uma das variáveis dos testes.
 

 

Três cenários
 

 

Três cenários de incerteza foram criados: num deles, o macaco recebia o sumo uma em quatro vezes (25 por cento); noutro, três em quatro vezes (75%); num terceiro, uma em duas vezes (50%). A surpresa é que os níveis de dopamina no macaco subiam mais nos dois segundos que sucediam o sinal visual no terceiro cenário, quando o grau de incerteza era maior.
 

 

No primeiro cenário, o macaco parecia desconfiar que provavelmente não iria receber o sumo. No segundo, que provavelmente iria receber. No terceiro, em que a probabilidade era meio a meio, o macaco não esperava nada de definido. Em resumo, os níveis de dopamina indicaram um alto grau de excitação no macaco com a noção de que poderia ou não ser recompensado.
 

 

Esses resultados sugerem que o «instinto» do jogador é um traço comum a vários animais e não depende de alto nível humano de abstracção. Talvez os aficcionados por roletas e jogos de azar estejam simplesmente a agir por uma espécie de condicionamento bioquímico. Mais difícil de entender é a origem de um sistema aparentemente tão contraproducente. Fiorillo aposta em uma razão: o mecanismo da atenção.
 

 

«Não sabemos, mas uma possibilidade é que algum nível de aposta seja benéfica em ambientes naturais. Quando um animal corre um risco, pode ganhar ou perder, mas de todo modo provavelmente aprenderá algo que será útil no futuro. Isso porque recompensas naturais tendem a ser previsíveis a partir de estímulos do ambiente ou de acções do animal. Logo, a incerteza tende a diminuir conforme o animal aprende sobre seu ambiente.»
 

 

Nos homens, o comportamento natural é reapropriado em contexto cultural, autonomizando-se e tornando-se uma característica indesejável. «Num casino, as probabilidades são fixas, e não há nada útil a ser aprendido, que possa ajudar alguém a predizer perdas ou ganhos. O cérebro não foi projectado para lidar com as probabilidades fixas do casino."
 

 

Eliminar a índole apostadora dos homens parece difícil. Uma opção seria desenvolver algo que pudesse manter o «instinto» sob controlo, evitando que os apostadores percam tudo em jogo. Talvez o conhecimento de que a dopamina tem algo a ver com esse processo possa ajudar.
 

 

«As drogas directamente direccionadas ao sistema dopaminérgico foram muito úteis no tratamento da doença de Parkinson e esquizofrenia, mas até agora tiveram pouca utilidade para tratar o vício das drogas - todas essas são condições que envolvem alteração nos níveis de dopamina, em maior ou menor escala», diz Fiorillo.
 

 

De toda forma, desenvolver drogas anticompulsão por apostas seria uma tarefa para outro investigador. «O meu trabalho está realmente bem distante desse aspecto da estudo», afirma.
 

 

Traduzido e adaptado por:
 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

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