Limpeza obsessiva compulsiva tem razões genéticas

Higiene corporal foi importante para a sobrevivência humana

04 janeiro 2002
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O seu filho passa muito tempo na casa-de-banho? Lava as mãos com uma frequência que você acha exagerada. Pois fique a saber que podem existir razões genéticas para isso acontecer.
 

 

Segundo um grupo de investigadores americanos, as preocupações com a higiene e a aparência podem constituir importantes comportamentos de sobrevivência que fazem parte da informação genética do indivíduo.
 

 

Ratos obsessivos por limpeza ficam carecas e com feridas
 

 

Estes investigadores, coordenados por Mario Capecchi, da Universidade do Utah (EUA), fizeram um estudo com ratinhos que revelou que existe um grupo de genes que – designado Hoxb – que, quando sofre mutações leva os animais a lavarem-se continua e obsessivamente. Chegam mesmo a ficar carecas e a desenvolver chagas.
 

 

Um gene específico deste grupo –o Hoxb8 – parece ser o responsável pelo comportamento obsessivo de limpeza. Os cientistas provocaram uma mutação neste gene e, ao fim de algum tempo, após observações contínuas dos ratos com o gene modificado, verificaram que os ratos apresentavam grandes áreas do corpo completamente desprovidas de pêlo. No entanto, não perceberam de imediato se isso se devia directamente à mutação ou se resultava de outro factor que não estava a ser controlado na experiência.
 

 

A fim de averiguar esta questão, os autores do estudo resolveram instalar uma câmara para gravar todos os movimentos dos ratinhos ao longo das 24 horas do dia. Foi assim que verificaram que os ratos portadores da mutação no gene Hoxb8 ficaram completamente obcecados pela limpeza e, por isso, começaram a lamber-se de forma compulsiva chegando mesmo a fazer feridas. Ficaram tão afectados pela mutação que até insistiam em lamber os ratinhos do grupo de controlo (sem o gene Hoxb8 alterado) que se encontravam na mesma gaiola. Assim, estas observações mostraram claramente que os ratos alterados apresentavam comportamentos obsessivo-compulsivos com a limpeza.
 

 

Maior preocupação com higiene aumentou esperança média de vida
 

 

Em declarações à agência Reuters, o coordenador do estudo explica este grupo de genes existe tanto nos seres humanos como nos ratinhos e que se se verificar que as mutações no gene Hoxb8 são responsáveis pelo comportamento obsessivo-compulsivo relativo à limpeza, então está aberto o caminho para desenvolver estudos que aprofundem os conhecimentos que ajudem a explicar esta doença.
 

 

Capecchi afirma que o próximo passo dos trabalhos será aceder a populações com este tipo de comportamento obsessivo-compulsivo, analisar o DNA dos indivíduos afectados e averiguar se apresentam mutações semelhantes à estudada no estudo com os ratinhos.
 

 

Os pequenos estudos já realizados em humanos já permitiram mostrar que existe uma base genética subjacente a este comportamento. Em gémeos idênticos, se um dos irmãos apresenta este tipo de comportamentos, então a probabilidade do outro gémeo também o apresentar aumenta significativamente.
 

 

A família genética Hoxb desempenha funções muito importantes no início do desenvolvimento do organismo humano, encontrando-se envolvida na formação de determinadas partes do cérebro, de todos os ossos do corpo e na determinação da disposição dos órgãos no seu local específico, explicou Capecchi. Os autores do estudo levantam a hipótese de, após cumpridas estas funções, esta família de genes passe a desempenhar outras funções diferentes na vida adulta.
 

 

Para os primeiros indivíduos da nossa espécie, o asseio não era uma questão que os preocupasse sobremaneira. No entanto, o papel da higiene corporal foi crescendo ao longo da evolução humana, tornando-se mesmo importante em termos de sobrevivência selectiva sobre os da mesma espécie.
 

 

Para exemplificar isso mesmo, Capecchi refere a invenção das roupas de algodão – isso aconteceu quando a Europa começou a importar algodão do Egipto. Quando isso aconteceu, as pessoas começaram a lavar as suas roupas com maior frequência e que possibilitou a eliminação de microorganismos patogénicos, pulgas e outros parasitas. Ao mesmo tempo a preocupação com a higiene e aparência corporal aumentaram. Estas alterações aumentaram a esperança média de vida.
 

 

 

Joaquina Pereira
 

MNI – Médicos Na Internet

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