Jovens chineses consideram filhos como «intrusos»

Muitos casais decidiram não ter bebés

12 fevereiro 2004
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Os filhos na China, considerados «pequenos imperadores» devido à política de ‘Um só filho’, são vistos agora por muitos casais jovens como «intrusos» que os fariam perder qualidade de vida. Segundo um recente estudo, 12,4 por cento das famílias de Xangai (16 milhões de habitantes) não têm filhos, percentagem que ficou em 10 por cento no caso das famílias de Pequim (13 milhões). Muitos consideram que um filho seria «um intruso que os prenderia ao trabalho». Embora o Governo chinês esteja satisfeito com os resultados da política de ’Um só filho’, que nos últimos 20 anos evitou o nascimento de 300 milhões de crianças, o certo é que muitos casais jovens estão  a optar não procriar para desfrutar de sua recém-adquirida liberdade de consumo. O país mais populoso do mundo manterá o seu censo abaixo dos 1,6 biliões de habitantes em 2050 graças a essa política, promovida indirectamente por milhares de abandonos e abortos selectivos de meninas, já que a sociedade rural dá mais valor ao nascimento de um homem. Uma pesquisa recente realizada na cidade de Tianjin (leste) entre 600 famílias revelou que 60 por cento delas estavam de acordo com os valores de vida ’dink’ («double income, no kids»), ou, duplo salário sem filhos, em português. Para 64 por cento dos entrevistados, é «aceitável» não ter filhos, o que segundo os especialistas é preocupante para o envelhecimento da população e um reflexo das mudanças sociais que estão a ocorrer na China. São exactamente os «pequenos imperadores» que lideram esta mudança. «Os jovens de hoje são hedonistas e avaliam mais o individualismo e a qualidade de vida do que ter descendência», analisou Li Yinhe, sociólogo e responsável por um estudo sobre a evolução social da família chinesa nos últimos dez anos. O recente êxito da rede de lojas de brinquedos de aluguer ’Xingji Baobei’ («crianças estelares») é um sintoma a mais de que as famílias chinesas já não estão dispostas a gastar muito dinheiro na compra de brinquedos novos para seus filhos, um dos costumes do Ano Novo Lunar chinês, comemorado em Janeiro. A tradicional felicitação de casamento - «que sejas benzido em breve com filhos» - está a converter-se numa espécie de ameaça para algumas mulheres, antes valorizadas pela fertilidade e hoje cada vez mais integradas no mercado de trabalho. Algumas destas mudanças sociais são consideradas positivas pelos sociólogos, como o facto de que 93,5 por cento da população urbana não se importa - pela primeira vez em muitos séculos - em ter uma filha ou um filho. Por outro lado, aumenta o número de chineses de meia-idade que dizem «não» ao casamento ou que se divorciam, apesar de nesta faixa conseguirem uma maior estabilidade económica para formar uma família. Um estudo realizado em um distrito de Pequim mostrou que, dos 600 casos de divórcio dos últimos dois anos, 46,5 por cento correspondia a casais entre 30 e 39 anos, o que representa um aumento de 9,5 por cento em relação a 1981. Grande parte dos casos de divórcio entre os casais de meia-idade deve-se ao adultério, como demonstra outra pesquisa realizada em Xangai, onde apenas 0,5 por cento suportaria a infidelidade do seu cônjuge, uma prática comum na actualidade que choca o sentido chinês de honra. A maioria dos questionados mostrou-se confiante de que o precário sistema de Previdência Social tomará conta deles quando forem idosos, uma tarefa encomendada aos filhos nas áreas rurais, onde ainda reside mais de 70 por cento da população.Traduzido e adaptado por:Paula Pedro MartinsJornalistaMNI-Médicos Na Internet

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