Japoneses matam-se a trabalhar

Níveis elevados de produtividade levam à morte

27 maio 2002
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Cobiçados pelos seus altos níveis de produtividade, os japoneses começam a pagar com a própria vida a factura de tanta dedicação ao trabalho. O número de mortes já bateu o recordes.
 

 

Viciados em trabalho, os japoneses arriscam a vida para manter os empregos. Segundo um estudo publicado recentemente, o número de mortes provocadas por esse excesso teve um aumento de 68 por cento. Em apenas um ano este fenómeno, conhecido por Karoshi, já vitimou 143 trabalhadores no Japão.
 

 

Segundo a agência Reuteurs, a pesquisa conduzida pelo Ministério da Saúde nipónico demonstrou que este número de mortes duplicou desde Abril do ano transacto até ao passado mês de Março, em relação ao ano anterior. Este fenómeno que decorre do stresse, de problemas mentais ou depressão registou 31 mortes só por suicídio.
 

 

Parece existir uma relação entre o karoshi e as horas extraordinárias, ascendendo a mais de cem por mês e acima de 80 horas por mês entre os dois e seis meses que antecedem a data de óbito.
 

 

Um dos motivos que tem conduzido ao aumento é a alteração da política empresarial japonesa. As entidades empregadoras impõem cada vez mais um sistema baseado no mérito, relegando ao desaparecimento o sistema tradicional de vínculo vitalício à empresa.
 

 

Receando o despedimento, os funcionários trabalham cada vez mais horas. Como revelou uma autoridade do ministério, teme-se que "o número de karoshi possa continuar a crescer parcialmente pois a pressão das empresas é grande sobre os funcionários".
 

 

São os homens quem mais se destaca na lista de vítimas. Ao todo, no último ano 133 dos óbitos eram homens enquanto dez eram mulheres. Destes, 49 encontravam-se na faixa dos cinquenta anos e 38, nos quarenta.
 

 

Estes números vieram a lume devido às mudanças impostas à inspecção do trabalho, que têm analisado a relação entre o excesso de trabalho e a morte. Adoptado em Dezembro, este novo critério estabelece que os inspectores considerem as condições de trabalho das que antecederam, em seis meses, a morte das vítimas. Antigamente, em causa estaria apenas uma semana antes do óbito.
 

 

 

O termo Karoshi ganhou mais conhecedores nos anos 80 assim como a reputação que os japoneses granjearam pela sua dedicação extrema ao trabalho. Embora o primeiro caso de morte por excesso de trabalho se tenha verificado em 1969, só perto de 20 anos depois se manifestou uma real preocupação com este fenómeno, através da publicação de várias estatísticas relativas a este síndroma pelo Ministério do Trabalho japonês.
 

 

Em perigo de extinção
 

 

Com um índice de natalidade que mal ultrapassa um filho por casal, os japoneses arriscam-se a entrar em extinção.
 

 

Se a taxa de natalidade continuar a cair, “haverá um grande impacto em todas as áreas", alertou o ministro da saúde japonês, Chikara Sakaguchi. As autoridades locais estão cada vez mais preocupadas com o índice de fertilidade de 1,35 filho por mulher, o mais baixo na história do país.
 

 

A manter-se esta tendência, prevê-se que daqui a cinco anos a população actual de 127 milhões de japoneses comece a diminuir. Estima-se mesmo que o número de habitantes da nação nipónica possa ser reduzido para metade até 2100.
 

 

Preocupado, o Primeiro-Ministro japonês, Junichiro Koizumi, já pôs em curso um plano para encontrar forma de aumentar a natalidade no Japão. A aposta é sobretudo ao nível dos serviços sociais para conquistar uma maior compatibilidade entre o trabalho materno e o cuidado dos filhos.
 

Algumas sugestões para solucionar o problema apontam mesmo para uma maior abertura à emigração. Esta é pelo menos a sugestão de alguns assessores do governo.
 

 

De acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU), o Japão está a envelhecer tão rapidamente que, para manter a estabilidade da população activa, terá de abrir portas a 600 mil trabalhadores todos os anos até 2050. Se o país for avante com esta proposta um terço da população passará muito em breve a ser de origem estrangeira.
 

 

Praticamente todo o mundo desenvolvido se debate com o problema da baixa de natalidade. A única excepção à regra são os Estados Unidos da América, cujo o índice ainda está acima dos dois por cento, indispensáveis para conseguir um nível populacional constante. Na vizinha Espanha e em Itália, o índice é de 1,2 filho por mulher, enquanto em França atinge o valor de 1,7.
 

 

Paula Pedro Martins
 

MNI-Médicos Na Internet
 

 

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